March 2025

  • Retratos no Tempo: A Construção de um Projeto de Longa Duração

    Eu não me lembro exatamente quando surgiu o desejo de fazer este projeto, mas sempre pensei em algo relacionado à minha cidade natal, Pomerode (SC). Entre 2010 e 2016, produzi algumas fotografias em longa exposição das paisagens e de algumas casas enxaimel. No entanto, mesmo estando muito envolvido com meu trabalho nessa técnica, sempre senti que faltava algo nessas imagens.


    Em 2018, comecei a estudar o trabalho de alguns fotógrafos, entre eles Bryan Schutmaat, Alec Soth e Nadav Kander. Foram as fotografias do livro Grays the Mountain Sends, de Bryan, com seus belíssimos retratos, paisagens e a poesia presente em cada imagem deste trabalho – que foi desenvolvido em pequenas cidades mineradoras dos Estados Unidos – que acenderam a primeira chama para este projeto. Ainda em 2018 e 2019, fiz as primeiras fotografias usando minha câmera de filme, uma Mamiya RB67.

    Então, 2020 chegou trazendo uma grande reviravolta para todos nós. A pandemia me impediu de dar sequência ao projeto, e assim se passaram cinco anos sem que eu tirasse uma única fotografia para ele. Não que eu não tenha viajado para o sul nesse período, mas as prioridades desse tempo e algo dentro de mim não estavam em sintonia para continuar o trabalho. Me arrependo um pouco de não ter insistido e me dedicado mais, mas, nas poucas e curtas viagens que fiz para o sul, acabei aproveitando para estar com minha família.


    Projetos de longa duração permitem esse intervalo, um respiro na produção para que as ideias se organizem e tomem forma. Minha série Litorâneas levou cerca de quatro anos para que seu principal corpo de trabalho fosse concluído e, ainda assim, continuo produzindo algumas imagens para a série. Um outro exemplo é o trabalho mais recente de Bryan Schutmaat, Sons of the Living, que levou dez anos para ser finalizado. Em entrevista ao podcast Photo Work with Sasha Wolf, Bryan comentou que, desses dez anos, ele se dedicou em média apenas duas semanas por ano à produção das fotografias. Na última semana, estava olhando as imagens do livro King, Queen, Knave (2024), do fotógrafo Gregory Halpern, que começou esse projeto há mais de vinte anos, quando tinha 19 anos e morava em Buffalo, NY, sua cidade natal. Outros trabalhos dele também levaram de cinco a sete anos para serem concluídos.

    No final de fevereiro, viajei para o sul para visitar a família e aproveitar alguns dias extras durante o feriado de Carnaval. Entre encontros familiares, visitas e almoços com amigos, consegui separar duas tardes para fotografar algumas pessoas que falam Plattdeutsch. Foram dois momentos muito especiais, marcados pela simpatia e simplicidade das famílias que me receberam e abriram as portas de suas casas para que eu pudesse registrar esse pedacinho quase esquecido de suas vidas. 

    Nessa viagem, levei minha câmera de filme, minha câmera digital e um gravador de áudio. No início do projeto, em 2019, estava decidido a fazer todas as fotografias em filme colorido. No entanto, ao longo desses cinco anos, os preços dos filmes quase triplicaram, o que me faz considerar a possibilidade de produzir as imagens com a câmera digital. Mas essa decisão ficará para a minha próxima viagem, pois o custo de alguns rolos de filme para uma semana de trabalho pode facilmente cobrir as despesas da viagem e deslocamentos. Para os retratos, fotografei primeiro com a câmera de filme e, em seguida, fiz alguns registros digitais, para que mais tarde eu possa avaliar os resultados com calma e tomar uma decisão baseada não apenas nos custos. Nessas duas visitas, também fiz alguns registros em vídeo com captação de áudio. Ainda não sei exatamente como vou trabalhar com esse material, mas quem sabe em uma próxima newsletter eu já tenha novidades sobre esse aspecto.

    Olhando para trás, vejo esse tempo sem produzir fotografias como um período de amadurecimento, no qual não só pude me aprofundar no tema, mas também refletir sobre a melhor abordagem para fotografar as pessoas. Sei que não tenho mais cinco ou sete anos para concluir este projeto, pois a maioria das pessoas que ainda fala Plattdeutsch já está em idade avançada, o que limita muito o tempo que tenho para registrar esse aspecto da minha história.

    Em breve, compartilharei mais informações sobre o projeto.

  • A ressignificação do nosso litoral

    Tudo começou com a ideia de um projeto fotográfico, que precisava ser apresentado como trabalho de conclusão ao final da especialização que fiz entre 2009 e 2010. A princípio, pensei em fotografar o litoral de Santa Catarina em preto e branco, mas ansiava por algo além de um simples registro, procurava uma maneira de me envolver profundamente com a paisagem que fotografava. Durante os estudos, conheci os trabalhos do fotógrafo americano Carleton Watkins (1829-1916) e do brasileiro Marc Ferrez (1843-1924), que registraram paisagens e transformações nos Estados Unidos e no Brasil. Devido às limitações técnicas da época, a sensibilidade do material fotográfico exigia longas exposições, criando uma estética única para as fotografias de paisagem.

    Na mesma época, descobri o trabalho de Valdir Cruz, fotógrafo brasileiro radicado em Nova York, que produziu uma série de ensaios no Brasil utilizando também a técnica da longa exposição, além de outros fotógrafos como o inglês Michael Kenna, o americano Rolfe Horn e o austríaco Josef Hoflehner.

    Como as câmeras atuais não possuem as limitações técnicas do século XIX, precisei criar essa restrição para fotografar. Comprei um filtro ND, utilizei ISO 50 ou 100 e regulei a abertura da lente para f/16. Dessa forma, consegui que pouquíssima luz chegasse ao sensor da minha câmera. O uso da longa exposição não foi apenas uma escolha estética e de linguagem, mas também uma maneira de desacelerar o processo fotográfico, exigindo o uso do tripé e uma abordagem mais contemplativa. Comecei fotografando locais de fácil acesso em Florianópolis – Itaguaçu, Beira-Mar Norte, Sambaqui – e, ao longo dos anos, fui explorando outras regiões do litoral catarinense.

    Em 2010, fotografei dois locais na parte continental de Florianópolis. Um deles foi a Praia da Ponta do Leal, capturando as pedras Três Irmãs e o trapiche que ficava ao lado delas. Observando imagens aéreas recentes, é possível notar que o trapiche não existe mais. Na época, a construção da Avenida Beira-Mar Continental estava em fase final a menos de 500 metros dali, e atualmente já existe um projeto de ampliação que deve aterrar toda essa área. 

    Alguns meses depois, fotografei a Praia da Saudade onde fica o trampolim (foto Stairway to Heaven), construído em 1957 pelo engenheiro Rui Ramos Soares, numa parceria entre a Prefeitura de Florianópolis e o Clube 12 de Agosto. A estrutura serviu para a diversão dos banhistas por décadas, mas, em fevereiro de 2022, parte do trampolim desabou.

    As rápidas mudanças nas áreas urbanas próximas à natureza mostram como, em apenas 15 anos, podem ocorrer transformações significativas em nosso espaço. Isso faz com que a memória e as lembranças desses locais sejam preservadas apenas em fotografias e vídeos. Quando comecei a produzir as primeiras imagens da série Litorâneas, tinha apenas uma vaga ideia do motivo pelo qual queria fazer essas fotos. Somente anos depois compreendi verdadeiramente como esse conjunto de fotografias se tornou um registro histórico – o “isso foi”, um testemunho visual da existência prévia das coisas, como menciona o historiador francês André Rouillé em seu livro A Fotografia: Entre o Documento e a Arte Contemporânea.

    Muito além da contemplação e do ato quase terapêutico de produzir uma longa exposição – condensando vários segundos e minutos em uma única imagem –, o projeto carrega a intenção de documentar, descobrir e “redescobrir” nosso mundo e nosso litoral por meio da linguagem fotográfica. Criar imagens que ressignificam aquilo que nossos olhos são incapazes de enxergar sem o auxílio do equipamento fotográfico é, ao mesmo tempo, um exercício de percepção e de preservação da memória visual.

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  • Depois de 15 anos, ainda há primeiras vezes

    Este ano completo 15 anos desde que comecei a fotografar minhas primeiras longas exposições. Na época, minhas pesquisas e referências eram quase totalmente voltadas para fotografias em preto e branco. Levei cerca de 3 anos e meio para registrar minhas primeiras longas exposições em cor e, desde então, venho alternando minha produção entre fotografias PB e coloridas, tanto em digital quanto em filme. Somente agora, após esses 15 anos, realizei minhas primeiras longas exposições com filme colorido.

    Sei que, para a maioria das pessoas, não faz a mínima diferença se uma fotografia foi feita com uma câmera digital ou com uma câmera de 30, 40 ou 70 anos. Mas, para nós, fotógrafos, há uma satisfação pessoal nesse processo: o momento nostálgico de carregar o filme na câmera, ajustar o foco e depois ver o resultado com cores, contraste e nuances completamente diferentes daquelas a que estamos acostumados ao olhar para telas.

    A imagem acima foi um desses momentos. No instante da captura, imaginei como a fotografia poderia ficar, mas sem ter absoluta certeza do resultado. Das 10 fotos do filme, uma exposição queimou (erro meu), duas precisei escanear novamente, três ficaram subexpostas e três (talvez quatro) irei compartilhar com vocês. As demais vou deixar guardadas. Melhor assim!

    Mais fotografias da série Analógicas você pode ver no link abaixo: