Trabalhos, inspirações e notas sobre fotografia

  • Os 4 km que eu não caminhei

    Enquanto a maioria ainda se recuperava do feriado de Carnaval, que este ano chegou mais cedo que o habitual, finalizava esta newsletter e estava planejado as próximas viagens para o sul. Mesmo que a ideia fosse ir ao cinema, visitar uma exposição, almoçar ou apenas tomar um café, era bem provável que, mesmo não querendo a gente se visse no meio de algum bloquinho.

    Este ano evitei a agitação. Passei os dias descansando, adotei um cachorro e tentei colocar a leitura em dia. No ano passado, escrevi aqui sobre meu interesse por livros pensados como objetos. Minha pequena coleção de “livros-objeto” se mistura a tantos outros: livros sobre fotografia, biografias, finanças e também muitos e-books. Demorei algum tempo para aceitar a leitura digital. Tentei ler no iPad e no próprio aplicativo do Kindle, mas não me adaptei. Talvez fosse a tela brilhante, ou as notificações e aplicativos a um clique da distração.


    Atualmente tenho intercalado a leitura entre os dois formatos. De um lado, a leveza e praticidade do Kindle; de outro, as páginas físicas e as marcações feitas à moda antiga. Neste momento estou lendo Things Become Other Things, de Craig Mod, e comecei recentemente a biografia do fotógrafo Josef Koudelka, que dispensa apresentações. Acompanho o trabalho de Craig Mod há alguns anos, desde o lançamento de Koya Bound. Escritor e fotógrafo, ele mora há mais de vinte anos no Japão e, nos últimos seis ou sete, tem usado a caminhada como ferramenta central tanto para a escrita quanto para a fotografia. Entre seus percursos estão rotas históricas de peregrinação no Japão, como a Kumano Kodō, ao sul de Kyoto, reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

    O ato de caminhar também faz parte de meus projetos. Na série Litorâneas, percorri muitos quilômetros em trilhas para registrar as longas exposições. Quando cheguei a São Paulo, caminhei muito para conhecer a cidade. No ano passado, enquanto desenvolvia a ideia do projeto Toda Manhã de Domingo e definia seus primeiros passos, literalmente e metaforicamente, percebi que a melhor maneira de realizá-lo seria caminhando. Seria muito mais simples entrar no carro e partir para o próximo ponto, cobrindo distâncias maiores em um único dia. Por outro lado, perderia a oportunidade de estar presente, de vivenciar o espaço e observando lentamente. Estar ali talvez significasse conversar com algum morador e, com sorte, fazer um retrato.

    Durante as pesquisas, encontrei um texto de Wim Wenders, no livro Written in the West, que traduz esse sentimento na forma de ver e na satisfação de caminhar e fotografar sozinho:

    “Solidão e fotografar estão conectados de uma maneira importante. Se você não está sozinho, nunca consegue adquirir esse modo de ver, essa imersão completa no que está diante dos olhos, sem precisar mais interpretar, apenas olhar. Existe um tipo particular de satisfação em olhar e viajar sozinho, e isso está ligado a essa relação entre solidão e fotografia. Se você não está sozinho, faz fotografias diferentes. Raramente sinto vontade de fotografar quando não estou por conta própria. Aquela viagem em busca de material foi puro prazer. Eu acordava de manhã e simplesmente saía dirigindo rumo ao desconhecido, seguindo estrada afora o dia inteiro. Em longos trechos, nem mesmo tinha música para ouvir. Não precisava de nada além de olhar e fotografar. A combinação também era incomum: aquelas duas belas câmeras, a Leica e a Makina, com funções distintas. Na verdade, éramos três naquela viagem… Sim, quando você fotografa, a solidão frequentemente está ligada a um sentimento particular de felicidade, um contentamento muito específico que ocasionalmente também percebi em outras pessoas que encontrei fotografando em suas viagens.”

    Como comentei na última newsletter, voltei ao sul no final de janeiro e tentei uma abordagem diferente. Em vez de caminhar, desta vez peguei uma carona, o que acabou confirmando, na prática, a ideia presente no texto de Wenders, e visitei alguns pontos que já havia mapeado. Nesse percurso de aproximadamente quatro quilômetros, foi possível perceber mudanças significativas na paisagem. Nos primeiros dois quilômetros, casas e comércios se sucedem quase lado a lado. Nos quatro seguintes, surge um espaçamento, um respiro: muito verde, pastagens e construções esparsas que transformam rapidamente o cenário. Mais adiante, ao se aproximar novamente do centro, a paisagem volta a ser tomada por casas, comércios e pequenos prédios.

    No momento, ainda não tenho data para a próxima viagem, nem minha Leica ou Makina. Mas pretendo voltar e percorrer esses trechos mais verdes, com menos interferências humanas. Ainda não tenho certeza, mas talvez possa desenvolver um projeto paralelo e retratar alguns moradores pelo caminho.

    Tchüsss,
    Alessandro Gruetzmacher

  • Dois quilômetros, algumas fotos

    Imaginei esta primeira newsletter de 2026 como uma pequena retrospectiva da minha produção autoral de 2025. A ideia era compartilhar novas fotografias do projeto Plattdeutsch e também alguns novos trabalhos em Fine Art. No entanto, o último semestre foi um tanto delicado, e precisei me afastar um pouco da fotografia e das minhas “grandes pretensões literárias” de manter esta newsletter em dia. Entre idas e vindas entre São Paulo e Santa Catarina, sempre que possível levava a câmera comigo. Ainda assim, nos últimos seis meses consegui fotografar apenas uma vez para o projeto Plattdeutsch. E, já nos meses finais de 2025, mesmo com visitas mais frequentes, fiz poucas saídas fotográficas — momentos breves para explorar, registrar algumas cenas e dar início a um novo projeto documental.

    Essas saídas abrangeram cerca de dois quilômetros do percurso. Se é que podem ser chamadas de saídas fotográficas, estavam mais próximas de caminhadas, usadas para espairecer e buscar um pouco de clareza. O trajeto foi pensado a partir dos caminhos que me levavam ao sítio na infância: começa no bairro onde cresci, ao sul da cidade, quase na divisa com Blumenau; passa pelo centro; e segue até o norte, com bairros entre morros e áreas predominantemente rurais. Ao cruzar a divisa entre Pomerode e Blumenau, ainda são alguns quilômetros de estrada de terra até chegar ao sítio. Pela minha estimativa, o percurso completo terá cerca de 45 km, atravessando trechos de asfalto, paralelepípedo e estradas de chão, passando por paisagens à beira da rodovia, casas antigas, indústrias, um centro charmoso, pequenos trechos junto ao rio e estradas íngremes com vistas para matas e áreas rurais.

    Nessas caminhadas, fiz testes de luz, enquadramento e observei o que poderia funcionar para este novo projeto, registrando cenas e paisagens e fazendo anotações sobre a abordagem. Para simplificar o processo de criação, o fluxo de imagens e construir um olhar mais coeso para a série, decidi trabalhar apenas com uma lente fixa. Levei comigo a câmera, a lente, um cartão de memória reserva e algumas baterias extras. Inspirado pelo movimento New Topographics e por fotógrafos como John Gossage e Mark Ruwedel, retomei o uso do preto e branco, deixando a fotografia em cor exclusivamente para o projeto Plattdeutsch. Assim, estabeleço uma separação clara entre os dois trabalhos — e sei, desde o início, para qual projeto estou fotografando.

    O movimento New Topographics surgiu em 1975, a partir de uma exposição homônima, e ficou conhecido por sua abordagem documental de paisagens banais — subúrbios, rodovias, áreas industriais — rejeitando o romantismo tradicional da fotografia e voltando o olhar para a paisagem urbana em transformação. Embora não tenha participado da exposição original, o fotógrafo John Gossage, conhecido pelo livro The Pond, tem uma frase da qual gosto muito: “There seems to be a great deal of opportunity in the ordinary.”

    Com essa citação em mente, compartilho abaixo algumas fotografias do banal, produzidas nessas breves caminhadas.

    Na próxima semana, retorno a Santa Catarina para registrar outros pontos importantes do percurso. Em breve, compartilho novas imagens por aqui — e, se quiser saber mais sobre o projeto, é só me escrever.

    Tchüsss,
    Alessandro Gruetzmacher

  • Toda Manhã de Domingo

    Novo projeto sobre minha cidade natal

    Algumas das minhas memórias mais vívidas da infância acontecem nos domingos no sítio do meu avô. O café da manhã com minha bisavó. O cheiro da comida da minha avó se espalhando pela casa. Passar o dia correndo descalço pelo terreno. Pescar com meu pai e com meu avô. Durante muitos anos, foram essas pequenas rotinas de domingo que preencheram meus finais de semana — e boa parte das lembranças que carrego daquela época. Às vezes íamos no sábado, mas era quase sempre o domingo que guardava esses momentos que sigo levando comigo com carinho.

    Fazendo sol, chuva ou frio, domingo de sítio era dia de acordar cedo. Lembro das manhãs de inverno em que meu pai me chamava antes do sol nascer. Ainda meio sonolento, vestia o casaco e corria até o jardim para observar a geada brilhando na grama e no telhado das casas vizinhas. Logo depois partíamos. No banco de trás do carro, eu me inclinava para ver a geada na mata, o vapor subindo do rio e o caminho sinuoso que levava até o sítio. Esse trajeto, percorrido centenas de vezes, é também um mapa das minhas primeiras memórias: as casas, as pequenas fábricas, os comércios; a rua de paralelepípedos no centro da cidade; e os últimos quilômetros de estrada de terra. Cada trecho, curva e bifurcação desenhava a paisagem dos domingos — ora entre as casas, ora entre a mata dos morros.

    A fotografia deste projeto parte desse lugar íntimo. É um olhar sobre a memória afetiva da minha cidade natal. As imagens convidam o espectador a caminhar comigo – atravessando o espaço entre a lembrança e o presente.

    Para ver outras fotografias acesse meu site, ou assine o Substack para acompanhar as novidades deste e outros projetos.

  • Um breve mapa sobre meu trabalho

    Se você acompanha minhas newsletters, já deve ter notado que meu trabalho circula por diferentes territórios da fotografia — uma fala sobre arquitetura e interiores, outra sobre fotografia fine art, e a mais recente (que na teoria seria para substituir o Instagram, mas na prática virou um espaço mais livre) onde compartilho meus processos e projetos documentais.

    Ou mesmo conversando com novos clientes, percebo que alguns ainda não conhecem meu trabalho autoral, enquanto outros não sabem que também fotografo arquitetura e interiores.

    Então, aproveitei este espaço para reunir tudo em um só lugar — uma espécie de mapa do que venho produzindo, entre o comercial, o autoral e o documental. No fundo, todas essas frentes nascem de um mesmo interesse: observar o espaço e a relação entre tempo, luz e presença.

    No campo comercial, realizo projetos de fotografia voltados para arquitetura, interiores e produtos. Mais recentemente, tenho apresentado também projetos em vídeo e imagens aéreas (drone), voltados especialmente para arquitetura e interiores. São trabalhos desenvolvidos em parceria com escritórios, marcas e construtoras, sempre com atenção à atmosfera e à fidelidade visual dos espaços.

    Paralelamente, mantenho uma produção autoral, explorando a fotografia como linguagem poética. Nas séries de longa exposição, a passagem do tempo se torna matéria visível — como em Litorâneas e Analógicas, onde o mar e a luz se dissolvem em camadas sutis; em Unseen World, onde a técnica revela paisagens invisíveis ao olhar; e em Nova York e Rio de Janeiro, que transporta o ritmo urbano para uma dimensão silenciosa e etérea.

    Nas séries abstratas, exploro a cor, o movimento e a forma como elementos poéticos: Janela ao Infinito, Penumbra e Fragmentos de Luz refletem esse diálogo entre o real e o sensível — imagens que nascem da observação.

    A vertente documental reúne projetos de pesquisa e observação: o Plattdeutsch, que retrata comunidades do sul do Brasil que ainda preservam o dialeto e seus modos de vida; Toda Manhã de Domingo, que explora memórias e percursos de infância na minha cidade natal; e a Travel Series, que busca o encontro entre paisagem e experiência, durante minhas viagens pela América do Sul. Mais recentemente, o Projeto Eixo – São Paulo (eu sei, um péssimo nome por enquanto) explora as relações entre pessoas, território e paisagem urbana.

    Entre o trabalho encomendado e o autoral, há um mesmo fio condutor: o interesse pela construção do olhar — pelo modo como a fotografia revela, interpreta e transforma o mundo ao redor.

    Para conhecer mais sobre cada projeto autoral, visite meu site:
    www.gruetzmacher.com.br

    ou explore meus trabalhos para arquitetos e designers em:
    www.gruetzmacherstudio.com

  • Uma casa, um retrato

    No último mês, estava escrevendo sobre minha viagem a Pomerode, que aconteceu no início de setembro. Contei sobre a viagem de carro, o tempo frio e chuvoso e as novas fotos do projeto. No fim das contas, percebi que a newsletter havia ficado mais entediante que os próprios dias de chuva. Então, dei uma pausa na escrita e passei uns três ou quatro dias dedicando atenção a outras demandas: clientes e a digitalização das fotografias.

    Agora, olhando para as fotos escaneadas e relembrando os encontros dessa última saída fotográfica, percebo algo muito interessante entre todos os retratados: eles gostam de conversar, simplesmente isso. Pode parecer banal — afinal, a conversa é nosso principal meio de comunicação —, mas havia algo a mais. Era como se ansiassem por compartilhar suas histórias. Surgiam assuntos diversos: a madeira usada na construção da antiga casa, a morte do marido há quarenta anos ou até as grandes mudanças feitas na propriedade há dez ou quinze anos.

    Um desses encontros foi com o Sr. Nazário. Ele não fazia parte do roteiro que havíamos planejado, mas foi uma grata surpresa terminar o dia fazendo seu retrato. As visitas têm sido organizadas pela minha tia, que tem me ajudado muito, conversando com amigos e vizinhos para descobrir quem ainda fala o Plattdeutsch. Logo no início da tarde, passamos em frente a uma casa de madeira que me chamou a atenção pelas cores vibrantes, já desgastadas pelo tempo. O sol ressaltava a textura da madeira, e a janela, com um pedaço de vidro faltando, dava um charme bucólico — ainda que a casa parecesse abandonada.

    Com o dia chegando ao fim e o sol sumindo atrás das montanhas, decidi voltar até a antiga casa para fotografar a varanda, iluminada pelo último feixe de luz. Batemos palma na casa ao lado, nos identificamos e pedimos autorização. A senhora que apareceu disse que precisava falar com o marido, que havia saído para cuidar da propriedade, sem hora certa para voltar. Apontou a direção em que ele poderia estar. Por sorte, logo depois o vimos retornando, guardando suas ferramentas. Fui ao seu encontro e, enquanto me aproximava, pensei: preciso fazer um retrato dele.

    Tivemos uma breve conversa. Expliquei o projeto e o interesse em fotografar a antiga casa de madeira. Ele contou que aquela casa havia sido de sua sogra, mas que sua mãe, descendente de poloneses, falava o Plattdeutsch. Na hora, pensei: a casa não vai a lugar algum, mas este retrato do Sr. Nazário será muito mais significativo. O sol já havia se escondido atrás das montanhas, e deixei de lado a foto da varanda. Um pouco tímido, ele começou a compartilhar várias histórias sobre a casa de madeira e as mudanças no sítio. Depois de quase meia hora de conversa, aceitou o convite para fazer parte do projeto.

  • Territórios da Memória

    Comecei a escrever este post alguns dias antes de completar dois meses desde a última publicação. A ideia inicial era escrever semanalmente. Pouco depois, percebi que, com os trabalhos e compromissos, uma edição quinzenal seria uma boa saída para conciliar tudo. Mas logo se passou um mês… depois dois, sem nenhum sinal meu por aqui.

    Se você está lendo este post, significa que não apenas encontrei um tempo em meio à agenda apertada, mas também tenho novas ideias e observações para compartilhar.

    Nestes últimos dois meses, tivemos uma pequena viagem de família, alguns passeios, uma ida de última hora para o sul e diversas fotos despretensiosas. Fotos feitas ao acaso — na rua, em casa, no avião… Diferente dos últimos anos, em que me dediquei quase exclusivamente aos trabalhos comerciais e projetos autorais. Raras foram as vezes em que fotografei passeios ou registrei cenas do cotidiano conforme apareciam diante de mim. Sempre fotografei de forma mais objetiva, com atenção ao assunto, especialmente quando estava envolvido em séries ou projetos documentais.

    Estamos acostumados às imagens de grandes fotógrafos como Ansel Adams, Henri Cartier-Bresson, Sebastião Salgado, entre outros. Fotografias impecáveis, com composições harmoniosas, luzes perfeitas, exposições e contrastes precisos. Como a maioria dos fotógrafos, também busquei o extraordinário: o momento exato, o esforço que prova o quanto fomos longe ou o quanto esperamos para conseguir aquela imagem. E não estou aqui desqualificando o trabalho de ninguém — pelo contrário, também cruzei o continente para fotografar a Patagônia e estive a mais de 5.000 metros, no Peru, para registrar a Cordilheira dos Andes. E acredito que o Instagram contribuiu muito para esse imaginário coletivo de “fotografia ideal”, que acaba influenciando como olhamos e produzimos imagens.

    Nesse processo, muitas vezes esquecemos de reparar nos detalhes do dia a dia: aquele pequeno raio de luz, um desenho na pintura descascada de um muro, o amassado na lataria de um carro. O trabalho de fotógrafos como Robert Adams, John Gossage, Henry Wessel e Robert Frank segue justamente essa linha — mostrar o mundo real, em vez de uma visão romantizada da fotografia. É a liberdade de registrar o mundo em nossa volta, do jeito que vemos, ou porque aquilo é importante para nós, sem a obrigação de se encaixar em padrões. Pensando não só no “assunto”, mas também na “forma”. É nesse sentido que a fotografia pode ser muito particular em como enxergamos as coisas e o porque as fotografamos.

    Desde que voltei a trabalhar no projeto sobre o dialeto Plattdeutsch, tenho levado para minha cidade natal um olhar, uma bagagem fotográfica muito mais ampla. Se é que posso dizer que em 2006 eu tinha alguma bagagem. Hoje, depois de 21 anos morando fora, passo a perceber a cidade com um olhar quase estrangeiro. Observo a rotina, a paisagem, as pessoas e penso em como explorar visualmente esses elementos. Tenho pesquisado bastante sobre a sequência do projeto, planejado retratos, traçado estradinhas a percorrer e revisitado minhas memórias de infância. Caminhos de bicicleta com amigos, aventuras de canoa no rio, pescarias com meu pai ou o trajeto até o sítio dos meus avós. Essas memórias se transformam agora em um olhar fotográfico, que quero traduzir em projetos visuais.

    Tschüss!
    Alessandro Gruetzmacher

  • Plattdeutsch

    Há alguns meses compartilhei a ideia por trás do projeto Plattdeutsch e como tenho lidado com as questões de tempo e distância para realizar as fotografias ao longo dos últimos anos. Na newsletter de hoje, quero apresentar fotografias inéditas feitas entre 2018 e 2019, além de algumas produzidas na minha última viagem ao sul. Na ocasião, fotografei tanto em digital quanto em filme — e, depois de escanear os negativos, tive certeza: este projeto precisa ser feito em filme.

    Além da pesquisa sobre o baixo-alemão na minha cidade natal, Pomerode — ponto de partida para este projeto — pretendo documentar outras cidades e comunidades em Santa Catarina, onde há registros de mais seis municípios em que o dialeto ainda é falado. Também existem cerca de quinze cidades espalhadas pelos estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Espírito Santo onde há informações de que o Plattdeutsch ainda é utilizado.

    Mais fotografias do projeto você encontra no meu site.


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  • Pensando o livro como objeto

    Trabalhei em uma gráfica comercial por cinco anos — como comentei em uma das newsletters anteriores. Durante esse período, comecei a observar e inspecionar todo o material gráfico: conferia a qualidade da impressão, o registro, o acabamento, as dobras, colagens etc. Lembro de um episódio, em 2001 ou 2002, numa das minhas primeiras viagens para São Paulo. Meu então chefe desmontou a caixinha onde era servido o lanche (sim, a gente recebia lanche até num voo de 1h de Navegantes até Congonhas) e ficou inspecionando aquele pequeno pedaço de papel dobrado. Trabalhar na gráfica e entender de papéis, acabamentos, cores e fontes tipográficas me fez, por alguns anos, querer ser um produtor gráfico.

    Ainda levo daquela época alguns interesses — especialmente a curiosidade por tipografia e o prazer de descobrir novos livros. Não apenas os literários ou fotográficos, mas livros que, para mim, podem ser considerados objetos. São poucos os que seguem essa linha e, em geral, são livros de tamanho pequeno a médio — um pouco menores que uma folha Carta ou não muito maiores que uma folha A4. O papel usado no miolo desses livros faz com que eles não sejam apenas vistos ou folheados, mas também tateados com a ponta dos dedos. E para proteger esse miolo e todo seu conteúdo gráfico, a capa. Nos livros-objeto, considero imprescindível uma capa dura, revestida com tecido, com o título em baixo-relevo e serigrafia. Talvez com uma pequena imagem complementar.

    Como fotógrafo de arquitetura e interiores, vejo muitos livros espalhados pelas casas e apartamentos, sendo usados como objetos de decoração. Muitos deles são escolhidos para compor a sala, os quartos ou outros ambientes, ajudando a deixar os espaços mais humanizados. Eles são colocados sobre mesas de centro, prateleiras ou mesinhas laterais — às vezes apenas para “preencher o vazio”. Mas quando falo em livros-objeto, me refiro àqueles que as pessoas desejam adquirir pelas histórias, como objetos táteis, com cheiro, textura — livros que nasceram para serem folheados, contarem histórias e não simplesmente ocuparem espaço até a próxima reforma ou quando a decoração sair de moda.

    Tenho pesquisado e adicionado alguns desses livros à minha pequena (e irrelevante) coleção. Eles têm me servido de inspiração para o projeto do meu livro da série Litorâneas. Os títulos que vou citar abaixo não fazem parte de nenhuma lista do tipo “três livros que você precisa comprar” — são apenas três livros que gosto pelo objeto que são.

    Um deles é Faculty Department, do fotógrafo Justin Chung. No livro, Justin reúne uma série de ensaios sobre a vida e os espaços de pessoas criativas. Além das fotografias, que mostram estúdios, oficinas e casas, cada ensaio vem acompanhado de um texto. O tamanho, o design das páginas e os materiais utilizados tornam o livro uma experiência tátil — daqueles que se aprecia com as pontas dos dedos, sentindo o peso e a textura do papel.

    Outro exemplo é Kissa by Kissa, do fotógrafo e escritor Craig Mod. O livro reúne fotografias e pequenas histórias produzidas durante suas longas caminhadas pelo Japão. É uma homenagem aos pequenos kissaten — cafés que tocam jazz e servem o peculiar Pizza Toast: uma fatia grossa de pão de leite com molho, queijo e outros ingredientes como presunto, vegetais e cogumelos, tudo assado até o queijo derreter.

    Mapas também sempre despertaram minha curiosidade, desde pequeno. Enquanto produzia a série Litorâneas, descobri o Atlas of Remote Islands, de Judith Schalansky. Comprei o livro, na época, exclusivamente pelos mapas e pela vontade de descobrir pequenas ilhas remotas que provavelmente nunca visitarei. Sem fotografias, ele traz apenas mapas, ilustrações, legendas e pequenos textos sobre cada ilha.

    Sigo buscando novos livros que possam servir de inspiração. Se você tiver alguma sugestão, por favor, me envie!


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  • O Dialeto das Imagens

    Quando pensamos em retrato fotográfico, qual imagem vem na sua memória? Existem diversas fotografias e retratos que são considerados históricos, porém se eu fizer um rápido comentário – “A Menina afegã”, acredito que a maioria das pessoas vai lembrar da fotografia registrada por Steve Mccurry. Apesar desta fotografia ser de 1984, eu a vi pela primeira vez anos mais tarde, tinha entre 10 e 12 anos numa revista Super Interessante.

    Os retratos documentais sempre me despertaram alguma curiosidade. Já na faculdade, quando comecei a me interessar pela fotografia, passava horas folheando revistas da National Geographic, no intervalo das aulas ia até a biblioteca para procurar por novas revistas e livros de fotografia. Nesse período fiz alguns retratos que possuem um valor sentimental e que considero retratos interessantes, pela sua expressão e história.

    Depois de alguns anos percebi que eu não levava muito jeito para fotografar pessoas. Sou meio tímido, introvertido e sempre achei que não levaria jeito pra coisa. Com isso, comecei a me interessar pela fotografia de paisagem, arquitetura e pela longa exposição. Quando me perguntam o que eu faço, digo que “fotografo pedras”, rs. Isso mesmo, me tornei um retratista de pedras. Elas não se mexem, simplesmente estão lá, esperando para que eu faça seu retrato. Assim, nestes últimos 15 anos me dediquei quase que exclusivamente fotografando minhas longas exposições e meus trabalhos comerciais.

    Nesse meio tempo, comecei a acompanhar e estudar o trabalho de fotógrafos documentais e me interessei novamente por retratos. Durante um café com meu amigo Gustavo Lacerda, comentei sobre a ideia de realizar um projeto (Plattdeutsch) na minha cidade natal, e ele fortemente recomendou para que  realizasse o projeto com filme 120 ou até mesmo grande formato. Assim, algum tempo depois, comprei um câmera de médio formato e filmes diversos.

    Como comentei numa newsletter anterior, o projeto ficou engavetado entre 2020 e 2024. Neste ano decidi voltar a produzir as fotografias, e estou organizando alguns viagens para o sul e ampliando minha pesquisa para outras cidades e estados: Espirito Santo, Paraná e Rio Grande do Sul onde o plattdeutsch ainda é falado. Ao final do projeto, quero reunir um conjunto de fotografias – retratos, fotografias de paisagens, registros da arquitetura e still-life – para contar a história das pessoas que ainda falam esse “dialeto” aqui no Brasil, que chegou com os imigrantes alemães no século XIX.

    Estou escrevendo os textos também no Substack e quero usar esta newsletter para divulgar o andamento dos meus projetos, compartilhar curiosidades, contar histórias dos retratados e mostrar o processo por trás das câmeras. O Plattdeutsch, é um dos projetos em que estou trabalhando este ano. O outro projeto que pretendo finalizar no segundo semestre, é a publicação do meu primeiro livro sobre a série Litorâneas.

    Sobre o livro, irei compartilhar mais informações no próximo post.


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  • Uma Vida Entre Caixas de Luz

    “Depois desse cartão, nunca mais vou precisar comprar outro!” – fui eu dizendo isso para um colega de trabalho no final de 2004, logo após comprar um cartão de memória de 512MB para minha câmera digital. Na época, eu tinha comprado minha primeira câmera há poucos meses, uma Canon PowerShot G5. Com seus 5 megapixels de resolução e o novo cartão, poderia tirar uma infinidade de fotos e ainda assim sobraria espaço. Mal sabia – ou poderia imaginar – que eu me tornaria um fotógrafo, e duas décadas depois, eu teria uma câmera que, com esse mesmo cartão, só permitiria tirar sete ou oito fotografias.

    Antes de continuar, preciso contar como comecei na fotografia e como ela mudou minha vida.

    Em 2001 (e não foi uma odisseia no espaço), comecei a trabalhar no departamento de pré-impressão de uma gráfica comercial, onde eram impressos cartazes, catálogos, folders e todo tipo de material gráfico que se possa imaginar. Nosso trabalho era preparar os arquivos enviados pelos clientes para que fossem impressos nas grandes máquinas da Heidelberg. Entre as etapas desse processo, estava a checagem das imagens, ilustrações e textos. Naquele período, muitos fotógrafos de publicidade ainda usavam cromos para seus catálogos, e, em várias ocasiões, fazíamos o escaneamento dessas imagens em alta resolução para depois substituí-las nos arquivos. Esse foi meu primeiro contato com a fotografia profissional.

    Em meados de 2003, um amigo comprou uma Sony Cyber-shot com cerca de 3-5 megapixels, e me lembro da tarde nublada de sábado quando me chamou para testar a nova câmera. Fizemos algumas fotos da paisagem e outras em modo macro, até que começou uma garoa fina e insistente, nos forçando a voltar para casa. Logo depois, ele fez o download das fotos para o computador – e foi nesse momento que minha relação com a fotografia mudou. Fiquei deslumbrado como uma câmera tão pequena poderia captar detalhes tão incríveis, como uma flor e uma minúscula aranha camuflada dentro dela. Aquilo foi um caminho sem volta. Passei dias e semanas pesquisando sobre fotografia: câmeras, técnicas, fotógrafos – qualquer coisa relacionada ao universo da fotografia que, dali em diante, se tornaria minha paixão.

    Nos meses seguintes, continuei imerso nas minhas pesquisas e, em 2004, comprei minha primeira câmera, a Canon G5(aquela que mencionei no início). Com ela, aprendi a fotografar e a explorar os diversos modos que a maioria das câmeras atuais possuem: prioridade de abertura, velocidade, modo manual – e, claro, usei bastante o modo automático também, rs. Cerca de um ano depois, troquei a G5 pela minha primeira câmera SLR, a Canon 300D (ou “Digital Rebel”), o que representou uma grande mudança no meu aprendizado. Ela era uma versão mais simples e barata de um modelo mais “profissional” da Canon, mas, para mim, era a melhor câmera que minhas economias permitiram comprar. Foi com ela que comecei a levar a fotografia realmente a sério, abandonando o JPEG e mergulhando no mundo do RAW (o negativo digital).

    Com o tempo, outras câmeras vieram: a Canon 40D e 60D, que usei para produzir a maioria das longas exposições da série Litorâneas, em Florianópolis. Também tive uma câmera compacta a Canon S95, do tipo que cabia no bolso e era perfeita para passeios e fotografias mais despretensiosas. Em 2014, já morando em São Paulo, migrei para o “full-frame” e comprei uma Canon 6D. Alguns anos depois, no início de 2017, adquiri uma Canon 5DS R, com 50 megapixels. Escolhi esse modelo pensando principalmente em meus trabalhos autorais e de estúdio. Com ela queria produzir longas exposições panorâmicas durante minha viagem à Patagônia, em março daquele ano, e também queria ter a possibilidade de imprimir minhas fotografias com mais de 2 metros de largura sem perda de qualidade.

    Além das câmeras digitais, também tive algumas câmeras de filme. A primeira foi uma Canon EOS 300, que ganhei junto com alguns cromos Fuji (Velvia e Sensia) e diversos negativos. Depois, comprei uma Canonet QL17, uma câmera compacta com lente fixa 40mm f/1.7. Pequena e discreta, era ótima para fotografar sem compromisso – muito parecida com a Fuji X100T, uma digital que tive por apenas seis meses, mas que me fazia parecer um turista por onde passava. Minhas últimas aquisições analógicas foram uma Canon EOS 30 e, meu grande xodó, a Mamiya RB67. Quando digo “grande”, é grande mesmo – pesando quase 3kg, não é exatamente a câmera mais prática para levar por aí. Tenho usado a RB67 em algumas trabalhos (Casa Cor e Jadel Almeida) e principalmente para meus trabalhos autorais e, mais recentemente, no projeto Plattdeutsch.

    Nos últimos anos, tenho pensado muito em como o processo analógico influencia meu trabalho. A fotografia analógica tem ressurgido com força – tanto que Kodak e Fuji trouxeram de volta alguns filmes que haviam sido descontinuados. Apesar desse boom, os preços dos filmes e da revelação, além do complexo trabalho de escaneamento, tratamento e ajuste de cores, me fazem cogitar vender minhas câmeras analógicas e manter apenas o equipamento digital. Mas basta esquecer a questão financeira por um momento para que as cores e a sutileza dos tons me façam desistir da ideia. Fotografar com filme é simplesmente muito bom.

    Vinte e um anos, doze câmeras, treze lentes, centenas de milhares de fotografias – uma simples coleção de pequenas caixas escuras e elementos óticos que me permitiram ver o mundo de um jeito único. Ah, e muitos cartões de memória.