Leituras, um cachorro e decisões questionáveis
Enquanto a maioria ainda se recuperava do feriado de Carnaval, que este ano chegou mais cedo que o habitual, finalizava esta newsletter e estava planejado as próximas viagens para o sul. Mesmo que a ideia fosse ir ao cinema, visitar uma exposição, almoçar ou apenas tomar um café, era bem provável que, mesmo não querendo a gente se visse no meio de algum bloquinho.

Este ano evitei a agitação. Passei os dias descansando, adotei um cachorro e tentei colocar a leitura em dia. No ano passado, escrevi aqui sobre meu interesse por livros pensados como objetos. Minha pequena coleção de “livros-objeto” se mistura a tantos outros: livros sobre fotografia, biografias, finanças e também muitos e-books. Demorei algum tempo para aceitar a leitura digital. Tentei ler no iPad e no próprio aplicativo do Kindle, mas não me adaptei. Talvez fosse a tela brilhante, ou as notificações e aplicativos a um clique da distração.
Atualmente tenho intercalado a leitura entre os dois formatos. De um lado, a leveza e praticidade do Kindle; de outro, as páginas físicas e as marcações feitas à moda antiga. Neste momento estou lendo Things Become Other Things, de Craig Mod, e comecei recentemente a biografia do fotógrafo Josef Koudelka, que dispensa apresentações. Acompanho o trabalho de Craig Mod há alguns anos, desde o lançamento de Koya Bound. Escritor e fotógrafo, ele mora há mais de vinte anos no Japão e, nos últimos seis ou sete, tem usado a caminhada como ferramenta central tanto para a escrita quanto para a fotografia. Entre seus percursos estão rotas históricas de peregrinação no Japão, como a Kumano Kodō, ao sul de Kyoto, reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

O ato de caminhar também faz parte de meus projetos. Na série Litorâneas, percorri muitos quilômetros em trilhas para registrar as longas exposições. Quando cheguei a São Paulo, caminhei muito para conhecer a cidade. No ano passado, enquanto desenvolvia a ideia do projeto Toda Manhã de Domingo e definia seus primeiros passos, literalmente e metaforicamente, percebi que a melhor maneira de realizá-lo seria caminhando. Seria muito mais simples entrar no carro e partir para o próximo ponto, cobrindo distâncias maiores em um único dia. Por outro lado, perderia a oportunidade de estar presente, de vivenciar o espaço e observando lentamente. Estar ali talvez significasse conversar com algum morador e, com sorte, fazer um retrato.
Durante as pesquisas, encontrei um texto de Wim Wenders, no livro Written in the West, que traduz esse sentimento na forma de ver e na satisfação de caminhar e fotografar sozinho:
“Solidão e fotografar estão conectados de uma maneira importante. Se você não está sozinho, nunca consegue adquirir esse modo de ver, essa imersão completa no que está diante dos olhos, sem precisar mais interpretar, apenas olhar. Existe um tipo particular de satisfação em olhar e viajar sozinho, e isso está ligado a essa relação entre solidão e fotografia. Se você não está sozinho, faz fotografias diferentes. Raramente sinto vontade de fotografar quando não estou por conta própria. Aquela viagem em busca de material foi puro prazer. Eu acordava de manhã e simplesmente saía dirigindo rumo ao desconhecido, seguindo estrada afora o dia inteiro. Em longos trechos, nem mesmo tinha música para ouvir. Não precisava de nada além de olhar e fotografar. A combinação também era incomum: aquelas duas belas câmeras, a Leica e a Makina, com funções distintas. Na verdade, éramos três naquela viagem… Sim, quando você fotografa, a solidão frequentemente está ligada a um sentimento particular de felicidade, um contentamento muito específico que ocasionalmente também percebi em outras pessoas que encontrei fotografando em suas viagens.”

Como comentei na última newsletter, voltei ao sul no final de janeiro e tentei uma abordagem diferente. Em vez de caminhar, desta vez peguei uma carona, o que acabou confirmando, na prática, a ideia presente no texto de Wenders, e visitei alguns pontos que já havia mapeado. Nesse percurso de aproximadamente quatro quilômetros, foi possível perceber mudanças significativas na paisagem. Nos primeiros dois quilômetros, casas e comércios se sucedem quase lado a lado. Nos quatro seguintes, surge um espaçamento, um respiro: muito verde, pastagens e construções esparsas que transformam rapidamente o cenário. Mais adiante, ao se aproximar novamente do centro, a paisagem volta a ser tomada por casas, comércios e pequenos prédios.

No momento, ainda não tenho data para a próxima viagem, nem minha Leica ou Makina. Mas pretendo voltar e percorrer esses trechos mais verdes, com menos interferências humanas. Ainda não tenho certeza, mas talvez possa desenvolver um projeto paralelo e retratar alguns moradores pelo caminho.
Tchüsss,
Alessandro Gruetzmacher





























