Um olhar documental sobre o Plattdeutsch e as raízes culturais que permanecem.
Quando pensamos em retrato fotográfico, qual imagem vem na sua memória? Existem diversas fotografias e retratos que são considerados históricos, porém se eu fizer um rápido comentário – “A Menina afegã”, acredito que a maioria das pessoas vai lembrar da fotografia registrada por Steve Mccurry. Apesar desta fotografia ser de 1984, eu a vi pela primeira vez anos mais tarde, tinha entre 10 e 12 anos numa revista Super Interessante.
Um dos meus primeiro retratos – Blumenau, 2004
Os retratos documentais sempre me despertaram alguma curiosidade. Já na faculdade, quando comecei a me interessar pela fotografia, passava horas folheando revistas da National Geographic, no intervalo das aulas ia até a biblioteca para procurar por novas revistas e livros de fotografia. Nesse período fiz alguns retratos que possuem um valor sentimental e que considero retratos interessantes, pela sua expressão e história.
Depois de alguns anos percebi que eu não levava muito jeito para fotografar pessoas. Sou meio tímido, introvertido e sempre achei que não levaria jeito pra coisa. Com isso, comecei a me interessar pela fotografia de paisagem, arquitetura e pela longa exposição. Quando me perguntam o que eu faço, digo que “fotografo pedras”, rs. Isso mesmo, me tornei um retratista de pedras. Elas não se mexem, simplesmente estão lá, esperando para que eu faça seu retrato. Assim, nestes últimos 15 anos me dediquei quase que exclusivamente fotografando minhas longas exposições e meus trabalhos comerciais.
Nesse meio tempo, comecei a acompanhar e estudar o trabalho de fotógrafos documentais e me interessei novamente por retratos. Durante um café com meu amigo Gustavo Lacerda, comentei sobre a ideia de realizar um projeto (Plattdeutsch) na minha cidade natal, e ele fortemente recomendou para que realizasse o projeto com filme 120 ou até mesmo grande formato. Assim, algum tempo depois, comprei um câmera de médio formato e filmes diversos.
Retrato feito em Blumenau, 2018
Como comentei numa newsletter anterior, o projeto ficou engavetado entre 2020 e 2024. Neste ano decidi voltar a produzir as fotografias, e estou organizando alguns viagens para o sul e ampliando minha pesquisa para outras cidades e estados: Espirito Santo, Paraná e Rio Grande do Sul onde o plattdeutsch ainda é falado. Ao final do projeto, quero reunir um conjunto de fotografias – retratos, fotografias de paisagens, registros da arquitetura e still-life – para contar a história das pessoas que ainda falam esse “dialeto” aqui no Brasil, que chegou com os imigrantes alemães no século XIX.
Estou escrevendo os textos também no Substack e quero usar esta newsletter para divulgar o andamento dos meus projetos, compartilhar curiosidades, contar histórias dos retratados e mostrar o processo por trás das câmeras. O Plattdeutsch, é um dos projetos em que estou trabalhando este ano. O outro projeto que pretendo finalizar no segundo semestre, é a publicação do meu primeiro livro sobre a série Litorâneas.
Sobre o livro, irei compartilhar mais informações no próximo post.
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“Depois desse cartão, nunca mais vou precisar comprar outro!” – fui eu dizendo isso para um colega de trabalho no final de 2004, logo após comprar um cartão de memória de 512MB para minha câmera digital. Na época, eu tinha comprado minha primeira câmera há poucos meses, uma Canon PowerShot G5. Com seus 5 megapixels de resolução e o novo cartão, poderia tirar uma infinidade de fotos e ainda assim sobraria espaço. Mal sabia – ou poderia imaginar – que eu me tornaria um fotógrafo, e duas décadas depois, eu teria uma câmera que, com esse mesmo cartão, só permitiria tirar sete ou oito fotografias.
Antes de continuar, preciso contar como comecei na fotografia e como ela mudou minha vida.
Canon EOS 30 + lente 35 mm
Em 2001 (e não foi uma odisseia no espaço), comecei a trabalhar no departamento de pré-impressão de uma gráfica comercial, onde eram impressos cartazes, catálogos, folders e todo tipo de material gráfico que se possa imaginar. Nosso trabalho era preparar os arquivos enviados pelos clientes para que fossem impressos nas grandes máquinas da Heidelberg. Entre as etapas desse processo, estava a checagem das imagens, ilustrações e textos. Naquele período, muitos fotógrafos de publicidade ainda usavam cromos para seus catálogos, e, em várias ocasiões, fazíamos o escaneamento dessas imagens em alta resolução para depois substituí-las nos arquivos. Esse foi meu primeiro contato com a fotografia profissional.
Canon 40D + lente 17-40 mm e Canon S95
Em meados de 2003, um amigo comprou uma Sony Cyber-shot com cerca de 3-5 megapixels, e me lembro da tarde nublada de sábado quando me chamou para testar a nova câmera. Fizemos algumas fotos da paisagem e outras em modo macro, até que começou uma garoa fina e insistente, nos forçando a voltar para casa. Logo depois, ele fez o download das fotos para o computador – e foi nesse momento que minha relação com a fotografia mudou. Fiquei deslumbrado como uma câmera tão pequena poderia captar detalhes tão incríveis, como uma flor e uma minúscula aranha camuflada dentro dela. Aquilo foi um caminho sem volta. Passei dias e semanas pesquisando sobre fotografia: câmeras, técnicas, fotógrafos – qualquer coisa relacionada ao universo da fotografia que, dali em diante, se tornaria minha paixão.
Nos meses seguintes, continuei imerso nas minhas pesquisas e, em 2004, comprei minha primeira câmera, a Canon G5(aquela que mencionei no início). Com ela, aprendi a fotografar e a explorar os diversos modos que a maioria das câmeras atuais possuem: prioridade de abertura, velocidade, modo manual – e, claro, usei bastante o modo automático também, rs. Cerca de um ano depois, troquei a G5 pela minha primeira câmera SLR, a Canon 300D (ou “Digital Rebel”), o que representou uma grande mudança no meu aprendizado. Ela era uma versão mais simples e barata de um modelo mais “profissional” da Canon, mas, para mim, era a melhor câmera que minhas economias permitiram comprar. Foi com ela que comecei a levar a fotografia realmente a sério, abandonando o JPEG e mergulhando no mundo do RAW (o negativo digital).
Canon 5DS R + lentes e acessórios que levei na viagem para a Patagônia
Com o tempo, outras câmeras vieram: a Canon 40D e 60D, que usei para produzir a maioria das longas exposições da série Litorâneas, em Florianópolis. Também tive uma câmera compacta a Canon S95, do tipo que cabia no bolso e era perfeita para passeios e fotografias mais despretensiosas. Em 2014, já morando em São Paulo, migrei para o “full-frame” e comprei uma Canon 6D. Alguns anos depois, no início de 2017, adquiri uma Canon 5DS R, com 50 megapixels. Escolhi esse modelo pensando principalmente em meus trabalhos autorais e de estúdio. Com ela queria produzir longas exposições panorâmicas durante minha viagem à Patagônia, em março daquele ano, e também queria ter a possibilidade de imprimir minhas fotografias com mais de 2 metros de largura sem perda de qualidade.
Além das câmeras digitais, também tive algumas câmeras de filme. A primeira foi uma Canon EOS 300, que ganhei junto com alguns cromos Fuji (Velvia e Sensia) e diversos negativos. Depois, comprei uma Canonet QL17, uma câmera compacta com lente fixa 40mm f/1.7. Pequena e discreta, era ótima para fotografar sem compromisso – muito parecida com a Fuji X100T, uma digital que tive por apenas seis meses, mas que me fazia parecer um turista por onde passava. Minhas últimas aquisições analógicas foram uma Canon EOS 30 e, meu grande xodó, a Mamiya RB67. Quando digo “grande”, é grande mesmo – pesando quase 3kg, não é exatamente a câmera mais prática para levar por aí. Tenho usado a RB67 em algumas trabalhos (Casa Cor e Jadel Almeida) e principalmente para meus trabalhos autorais e, mais recentemente, no projeto Plattdeutsch.
Mamiya RB67 – meu kit de médio formato
Nos últimos anos, tenho pensado muito em como o processo analógico influencia meu trabalho. A fotografia analógica tem ressurgido com força – tanto que Kodak e Fuji trouxeram de volta alguns filmes que haviam sido descontinuados. Apesar desse boom, os preços dos filmes e da revelação, além do complexo trabalho de escaneamento, tratamento e ajuste de cores, me fazem cogitar vender minhas câmeras analógicas e manter apenas o equipamento digital. Mas basta esquecer a questão financeira por um momento para que as cores e a sutileza dos tons me façam desistir da ideia. Fotografar com filme é simplesmente muito bom.
Vinte e um anos, doze câmeras, treze lentes, centenas de milhares de fotografias – uma simples coleção de pequenas caixas escuras e elementos óticos que me permitiram ver o mundo de um jeito único. Ah, e muitos cartões de memória.
Atualização | Julho de 2026
Como escrevi no final deste artigo, minha última aquisição havia sido uma Mamiya RB67. Depois de alguns anos usando praticamente as mesmas câmeras fotográficas, em junho de 2026 fiz uma pequena nova aquisição.
Primeiro, depois de duas ou três semanas em que surgiram alguns trabalhos comerciais para produzir vídeos de arquitetura e de produtos, finalmente me senti à vontade para comprar uma câmera dedicada à produção de vídeo. Agora, uma pequena Canon R50 V faz parte do meu kit de equipamentos para vídeos comerciais e também será utilizada na produção do documentário sobre o Plattdeutsch. A ideia desse documentário já havia sido pensada e testada no início do ano anterior. Na ocasião, utilizei a Canon 5DS R e, por conta das limitações da câmera para vídeo, decidi adiar as entrevistas e demais captações. A R50 V não é nenhuma câmera de cinema, mas é valente e oferece qualidade mais do que suficiente para os vídeos comerciais e para meus projetos autorais.
No mesmo mês, fui de uma pequena câmera de vídeo ao outro extremo da fotografia. Desde que me reconheço como fotógrafo, acompanho amigos, colegas e outros fotógrafos utilizando câmeras de grande formato. Aquelas câmeras com fole, repletas de ajustes manuais, uma lente sem zoom e nas quais se faz uma única fotografia por vez. Pois então, como contei no artigo A Quantidade Ideal de Câmeras, ganhei uma câmera 4×5 do meu amigo e vizinho. A história completa está naquele texto.
Ainda não cheguei a fotografar com ela, pois a câmera ainda precisa de uma pequena manutenção. Mas já tenho algumas ideias para colocá-la em uso. É uma câmera que representa outra forma de fotografar: um ritmo mais lento, um processo mais contemplativo e imagens silenciosas.
Vinte e dois anos, quatorze câmeras, treze lentes…