O retrato que não estava nos planos
No último mês, estava escrevendo sobre minha viagem a Pomerode, que aconteceu no início de setembro. Contei sobre a viagem de carro, o tempo frio e chuvoso e as novas fotos do projeto. No fim das contas, percebi que a newsletter havia ficado mais entediante que os próprios dias de chuva. Então, dei uma pausa na escrita e passei uns três ou quatro dias dedicando atenção a outras demandas: clientes e a digitalização das fotografias.
Agora, olhando para as fotos escaneadas e relembrando os encontros dessa última saída fotográfica, percebo algo muito interessante entre todos os retratados: eles gostam de conversar, simplesmente isso. Pode parecer banal — afinal, a conversa é nosso principal meio de comunicação —, mas havia algo a mais. Era como se ansiassem por compartilhar suas histórias. Surgiam assuntos diversos: a madeira usada na construção da antiga casa, a morte do marido há quarenta anos ou até as grandes mudanças feitas na propriedade há dez ou quinze anos.

Um desses encontros foi com o Sr. Nazário. Ele não fazia parte do roteiro que havíamos planejado, mas foi uma grata surpresa terminar o dia fazendo seu retrato. As visitas têm sido organizadas pela minha tia, que tem me ajudado muito, conversando com amigos e vizinhos para descobrir quem ainda fala o Plattdeutsch. Logo no início da tarde, passamos em frente a uma casa de madeira que me chamou a atenção pelas cores vibrantes, já desgastadas pelo tempo. O sol ressaltava a textura da madeira, e a janela, com um pedaço de vidro faltando, dava um charme bucólico — ainda que a casa parecesse abandonada.
Com o dia chegando ao fim e o sol sumindo atrás das montanhas, decidi voltar até a antiga casa para fotografar a varanda, iluminada pelo último feixe de luz. Batemos palma na casa ao lado, nos identificamos e pedimos autorização. A senhora que apareceu disse que precisava falar com o marido, que havia saído para cuidar da propriedade, sem hora certa para voltar. Apontou a direção em que ele poderia estar. Por sorte, logo depois o vimos retornando, guardando suas ferramentas. Fui ao seu encontro e, enquanto me aproximava, pensei: preciso fazer um retrato dele.
Tivemos uma breve conversa. Expliquei o projeto e o interesse em fotografar a antiga casa de madeira. Ele contou que aquela casa havia sido de sua sogra, mas que sua mãe, descendente de poloneses, falava o Plattdeutsch. Na hora, pensei: a casa não vai a lugar algum, mas este retrato do Sr. Nazário será muito mais significativo. O sol já havia se escondido atrás das montanhas, e deixei de lado a foto da varanda. Um pouco tímido, ele começou a compartilhar várias histórias sobre a casa de madeira e as mudanças no sítio. Depois de quase meia hora de conversa, aceitou o convite para fazer parte do projeto.
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