Territórios da Memória

Comecei a escrever este post alguns dias antes de completar dois meses desde a última publicação. A ideia inicial era escrever semanalmente. Pouco depois, percebi que, com os trabalhos e compromissos, uma edição quinzenal seria uma boa saída para conciliar tudo. Mas logo se passou um mês… depois dois, sem nenhum sinal meu por aqui.

Se você está lendo este post, significa que não apenas encontrei um tempo em meio à agenda apertada, mas também tenho novas ideias e observações para compartilhar.

Nestes últimos dois meses, tivemos uma pequena viagem de família, alguns passeios, uma ida de última hora para o sul e diversas fotos despretensiosas. Fotos feitas ao acaso — na rua, em casa, no avião… Diferente dos últimos anos, em que me dediquei quase exclusivamente aos trabalhos comerciais e projetos autorais. Raras foram as vezes em que fotografei passeios ou registrei cenas do cotidiano conforme apareciam diante de mim. Sempre fotografei de forma mais objetiva, com atenção ao assunto, especialmente quando estava envolvido em séries ou projetos documentais.

Estamos acostumados às imagens de grandes fotógrafos como Ansel Adams, Henri Cartier-Bresson, Sebastião Salgado, entre outros. Fotografias impecáveis, com composições harmoniosas, luzes perfeitas, exposições e contrastes precisos. Como a maioria dos fotógrafos, também busquei o extraordinário: o momento exato, o esforço que prova o quanto fomos longe ou o quanto esperamos para conseguir aquela imagem. E não estou aqui desqualificando o trabalho de ninguém — pelo contrário, também cruzei o continente para fotografar a Patagônia e estive a mais de 5.000 metros, no Peru, para registrar a Cordilheira dos Andes. E acredito que o Instagram contribuiu muito para esse imaginário coletivo de “fotografia ideal”, que acaba influenciando como olhamos e produzimos imagens.

Nesse processo, muitas vezes esquecemos de reparar nos detalhes do dia a dia: aquele pequeno raio de luz, um desenho na pintura descascada de um muro, o amassado na lataria de um carro. O trabalho de fotógrafos como Robert Adams, John Gossage, Henry Wessel e Robert Frank segue justamente essa linha — mostrar o mundo real, em vez de uma visão romantizada da fotografia. É a liberdade de registrar o mundo em nossa volta, do jeito que vemos, ou porque aquilo é importante para nós, sem a obrigação de se encaixar em padrões. Pensando não só no “assunto”, mas também na “forma”. É nesse sentido que a fotografia pode ser muito particular em como enxergamos as coisas e o porque as fotografamos.

Desde que voltei a trabalhar no projeto sobre o dialeto Plattdeutsch, tenho levado para minha cidade natal um olhar, uma bagagem fotográfica muito mais ampla. Se é que posso dizer que em 2006 eu tinha alguma bagagem. Hoje, depois de 21 anos morando fora, passo a perceber a cidade com um olhar quase estrangeiro. Observo a rotina, a paisagem, as pessoas e penso em como explorar visualmente esses elementos. Tenho pesquisado bastante sobre a sequência do projeto, planejado retratos, traçado estradinhas a percorrer e revisitado minhas memórias de infância. Caminhos de bicicleta com amigos, aventuras de canoa no rio, pescarias com meu pai ou o trajeto até o sítio dos meus avós. Essas memórias se transformam agora em um olhar fotográfico, que quero traduzir em projetos visuais.

Tschüss!
Alessandro Gruetzmacher

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