Há alguns meses compartilhei a ideia por trás do projeto Plattdeutsch e como tenho lidado com as questões de tempo e distância para realizar as fotografias ao longo dos últimos anos. Na newsletter de hoje, quero apresentar fotografias inéditas feitas entre 2018 e 2019, além de algumas produzidas na minha última viagem ao sul. Na ocasião, fotografei tanto em digital quanto em filme — e, depois de escanear os negativos, tive certeza: este projeto precisa ser feito em filme.
Além da pesquisa sobre o baixo-alemão na minha cidade natal, Pomerode — ponto de partida para este projeto — pretendo documentar outras cidades e comunidades em Santa Catarina, onde há registros de mais seis municípios em que o dialeto ainda é falado. Também existem cerca de quinze cidades espalhadas pelos estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Espírito Santo onde há informações de que o Plattdeutsch ainda é utilizado.
Mais fotografias do projeto você encontra no meu site.
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Um olhar documental sobre o Plattdeutsch e as raízes culturais que permanecem.
Quando pensamos em retrato fotográfico, qual imagem vem na sua memória? Existem diversas fotografias e retratos que são considerados históricos, porém se eu fizer um rápido comentário – “A Menina afegã”, acredito que a maioria das pessoas vai lembrar da fotografia registrada por Steve Mccurry. Apesar desta fotografia ser de 1984, eu a vi pela primeira vez anos mais tarde, tinha entre 10 e 12 anos numa revista Super Interessante.
Um dos meus primeiro retratos – Blumenau, 2004
Os retratos documentais sempre me despertaram alguma curiosidade. Já na faculdade, quando comecei a me interessar pela fotografia, passava horas folheando revistas da National Geographic, no intervalo das aulas ia até a biblioteca para procurar por novas revistas e livros de fotografia. Nesse período fiz alguns retratos que possuem um valor sentimental e que considero retratos interessantes, pela sua expressão e história.
Depois de alguns anos percebi que eu não levava muito jeito para fotografar pessoas. Sou meio tímido, introvertido e sempre achei que não levaria jeito pra coisa. Com isso, comecei a me interessar pela fotografia de paisagem, arquitetura e pela longa exposição. Quando me perguntam o que eu faço, digo que “fotografo pedras”, rs. Isso mesmo, me tornei um retratista de pedras. Elas não se mexem, simplesmente estão lá, esperando para que eu faça seu retrato. Assim, nestes últimos 15 anos me dediquei quase que exclusivamente fotografando minhas longas exposições e meus trabalhos comerciais.
Nesse meio tempo, comecei a acompanhar e estudar o trabalho de fotógrafos documentais e me interessei novamente por retratos. Durante um café com meu amigo Gustavo Lacerda, comentei sobre a ideia de realizar um projeto (Plattdeutsch) na minha cidade natal, e ele fortemente recomendou para que realizasse o projeto com filme 120 ou até mesmo grande formato. Assim, algum tempo depois, comprei um câmera de médio formato e filmes diversos.
Retrato feito em Blumenau, 2018
Como comentei numa newsletter anterior, o projeto ficou engavetado entre 2020 e 2024. Neste ano decidi voltar a produzir as fotografias, e estou organizando alguns viagens para o sul e ampliando minha pesquisa para outras cidades e estados: Espirito Santo, Paraná e Rio Grande do Sul onde o plattdeutsch ainda é falado. Ao final do projeto, quero reunir um conjunto de fotografias – retratos, fotografias de paisagens, registros da arquitetura e still-life – para contar a história das pessoas que ainda falam esse “dialeto” aqui no Brasil, que chegou com os imigrantes alemães no século XIX.
Estou escrevendo os textos também no Substack e quero usar esta newsletter para divulgar o andamento dos meus projetos, compartilhar curiosidades, contar histórias dos retratados e mostrar o processo por trás das câmeras. O Plattdeutsch, é um dos projetos em que estou trabalhando este ano. O outro projeto que pretendo finalizar no segundo semestre, é a publicação do meu primeiro livro sobre a série Litorâneas.
Sobre o livro, irei compartilhar mais informações no próximo post.
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“Depois desse cartão, nunca mais vou precisar comprar outro!” – fui eu dizendo isso para um colega de trabalho no final de 2004, logo após comprar um cartão de memória de 512MB para minha câmera digital. Na época, eu tinha comprado minha primeira câmera há poucos meses, uma Canon PowerShot G5. Com seus 5 megapixels de resolução e o novo cartão, poderia tirar uma infinidade de fotos e ainda assim sobraria espaço. Mal sabia – ou poderia imaginar – que eu me tornaria um fotógrafo, e duas décadas depois, eu teria uma câmera que, com esse mesmo cartão, só permitiria tirar sete ou oito fotografias.
Antes de continuar, preciso contar como comecei na fotografia e como ela mudou minha vida.
Canon EOS 30 + lente 35 mm
Em 2001 (e não foi uma odisseia no espaço), comecei a trabalhar no departamento de pré-impressão de uma gráfica comercial, onde eram impressos cartazes, catálogos, folders e todo tipo de material gráfico que se possa imaginar. Nosso trabalho era preparar os arquivos enviados pelos clientes para que fossem impressos nas grandes máquinas da Heidelberg. Entre as etapas desse processo, estava a checagem das imagens, ilustrações e textos. Naquele período, muitos fotógrafos de publicidade ainda usavam cromos para seus catálogos, e, em várias ocasiões, fazíamos o escaneamento dessas imagens em alta resolução para depois substituí-las nos arquivos. Esse foi meu primeiro contato com a fotografia profissional.
Canon 40D + lente 17-40 mm e Canon S95
Em meados de 2003, um amigo comprou uma Sony Cyber-shot com cerca de 3-5 megapixels, e me lembro da tarde nublada de sábado quando me chamou para testar a nova câmera. Fizemos algumas fotos da paisagem e outras em modo macro, até que começou uma garoa fina e insistente, nos forçando a voltar para casa. Logo depois, ele fez o download das fotos para o computador – e foi nesse momento que minha relação com a fotografia mudou. Fiquei deslumbrado como uma câmera tão pequena poderia captar detalhes tão incríveis, como uma flor e uma minúscula aranha camuflada dentro dela. Aquilo foi um caminho sem volta. Passei dias e semanas pesquisando sobre fotografia: câmeras, técnicas, fotógrafos – qualquer coisa relacionada ao universo da fotografia que, dali em diante, se tornaria minha paixão.
Nos meses seguintes, continuei imerso nas minhas pesquisas e, em 2004, comprei minha primeira câmera, a Canon G5(aquela que mencionei no início). Com ela, aprendi a fotografar e a explorar os diversos modos que a maioria das câmeras atuais possuem: prioridade de abertura, velocidade, modo manual – e, claro, usei bastante o modo automático também, rs. Cerca de um ano depois, troquei a G5 pela minha primeira câmera SLR, a Canon 300D (ou “Digital Rebel”), o que representou uma grande mudança no meu aprendizado. Ela era uma versão mais simples e barata de um modelo mais “profissional” da Canon, mas, para mim, era a melhor câmera que minhas economias permitiram comprar. Foi com ela que comecei a levar a fotografia realmente a sério, abandonando o JPEG e mergulhando no mundo do RAW (o negativo digital).
Canon 5DS R + lentes e acessórios que levei na viagem para a Patagônia
Com o tempo, outras câmeras vieram: a Canon 40D e 60D, que usei para produzir a maioria das longas exposições da série Litorâneas, em Florianópolis. Também tive uma câmera compacta a Canon S95, do tipo que cabia no bolso e era perfeita para passeios e fotografias mais despretensiosas. Em 2014, já morando em São Paulo, migrei para o “full-frame” e comprei uma Canon 6D. Alguns anos depois, no início de 2017, adquiri uma Canon 5DS R, com 50 megapixels. Escolhi esse modelo pensando principalmente em meus trabalhos autorais e de estúdio. Com ela queria produzir longas exposições panorâmicas durante minha viagem à Patagônia, em março daquele ano, e também queria ter a possibilidade de imprimir minhas fotografias com mais de 2 metros de largura sem perda de qualidade.
Além das câmeras digitais, também tive algumas câmeras de filme. A primeira foi uma Canon EOS 300, que ganhei junto com alguns cromos Fuji (Velvia e Sensia) e diversos negativos. Depois, comprei uma Canonet QL17, uma câmera compacta com lente fixa 40mm f/1.7. Pequena e discreta, era ótima para fotografar sem compromisso – muito parecida com a Fuji X100T, uma digital que tive por apenas seis meses, mas que me fazia parecer um turista por onde passava. Minhas últimas aquisições analógicas foram uma Canon EOS 30 e, meu grande xodó, a Mamiya RB67. Quando digo “grande”, é grande mesmo – pesando quase 3kg, não é exatamente a câmera mais prática para levar por aí. Tenho usado a RB67 em algumas trabalhos (Casa Cor e Jadel Almeida) e principalmente para meus trabalhos autorais e, mais recentemente, no projeto Plattdeutsch.
Mamiya RB67 – meu kit de médio formato
Nos últimos anos, tenho pensado muito em como o processo analógico influencia meu trabalho. A fotografia analógica tem ressurgido com força – tanto que Kodak e Fuji trouxeram de volta alguns filmes que haviam sido descontinuados. Apesar desse boom, os preços dos filmes e da revelação, além do complexo trabalho de escaneamento, tratamento e ajuste de cores, me fazem cogitar vender minhas câmeras analógicas e manter apenas o equipamento digital. Mas basta esquecer a questão financeira por um momento para que as cores e a sutileza dos tons me façam desistir da ideia. Fotografar com filme é simplesmente muito bom.
Vinte e um anos, doze câmeras, treze lentes, centenas de milhares de fotografias – uma simples coleção de pequenas caixas escuras e elementos óticos que me permitiram ver o mundo de um jeito único. Ah, e muitos cartões de memória.
Atualização | Julho de 2026
Como escrevi no final deste artigo, minha última aquisição havia sido uma Mamiya RB67. Depois de alguns anos usando praticamente as mesmas câmeras fotográficas, em junho de 2026 fiz uma pequena nova aquisição.
Primeiro, depois de duas ou três semanas em que surgiram alguns trabalhos comerciais para produzir vídeos de arquitetura e de produtos, finalmente me senti à vontade para comprar uma câmera dedicada à produção de vídeo. Agora, uma pequena Canon R50 V faz parte do meu kit de equipamentos para vídeos comerciais e também será utilizada na produção do documentário sobre o Plattdeutsch. A ideia desse documentário já havia sido pensada e testada no início do ano anterior. Na ocasião, utilizei a Canon 5DS R e, por conta das limitações da câmera para vídeo, decidi adiar as entrevistas e demais captações. A R50 V não é nenhuma câmera de cinema, mas é valente e oferece qualidade mais do que suficiente para os vídeos comerciais e para meus projetos autorais.
No mesmo mês, fui de uma pequena câmera de vídeo ao outro extremo da fotografia. Desde que me reconheço como fotógrafo, acompanho amigos, colegas e outros fotógrafos utilizando câmeras de grande formato. Aquelas câmeras com fole, repletas de ajustes manuais, uma lente sem zoom e nas quais se faz uma única fotografia por vez. Pois então, como contei no artigo A Quantidade Ideal de Câmeras, ganhei uma câmera 4×5 do meu amigo e vizinho. A história completa está naquele texto.
Ainda não cheguei a fotografar com ela, pois a câmera ainda precisa de uma pequena manutenção. Mas já tenho algumas ideias para colocá-la em uso. É uma câmera que representa outra forma de fotografar: um ritmo mais lento, um processo mais contemplativo e imagens silenciosas.
Vinte e dois anos, quatorze câmeras, treze lentes…
Reflexões sobre pausas, amadurecimento e a retomada de um olhar sobre minha cidade natal
Eu não me lembro exatamente quando surgiu o desejo de fazer este projeto, mas sempre pensei em algo relacionado à minha cidade natal, Pomerode (SC). Entre 2010 e 2016, produzi algumas fotografias em longa exposição das paisagens e de algumas casas enxaimel. No entanto, mesmo estando muito envolvido com meu trabalho nessa técnica, sempre senti que faltava algo nessas imagens.
Em 2018, comecei a estudar o trabalho de alguns fotógrafos, entre eles Bryan Schutmaat, Alec Soth e Nadav Kander. Foram as fotografias do livro Grays the Mountain Sends, de Bryan, com seus belíssimos retratos, paisagens e a poesia presente em cada imagem deste trabalho – que foi desenvolvido em pequenas cidades mineradoras dos Estados Unidos – que acenderam a primeira chama para este projeto. Ainda em 2018 e 2019, fiz as primeiras fotografias usando minha câmera de filme, uma Mamiya RB67.
Então, 2020 chegou trazendo uma grande reviravolta para todos nós. A pandemia me impediu de dar sequência ao projeto, e assim se passaram cinco anos sem que eu tirasse uma única fotografia para ele. Não que eu não tenha viajado para o sul nesse período, mas as prioridades desse tempo e algo dentro de mim não estavam em sintonia para continuar o trabalho. Me arrependo um pouco de não ter insistido e me dedicado mais, mas, nas poucas e curtas viagens que fiz para o sul, acabei aproveitando para estar com minha família.
Projetos de longa duração permitem esse intervalo, um respiro na produção para que as ideias se organizem e tomem forma. Minha série Litorâneas levou cerca de quatro anos para que seu principal corpo de trabalho fosse concluído e, ainda assim, continuo produzindo algumas imagens para a série. Um outro exemplo é o trabalho mais recente de Bryan Schutmaat, Sons of the Living, que levou dez anos para ser finalizado. Em entrevista ao podcast Photo Work with Sasha Wolf, Bryan comentou que, desses dez anos, ele se dedicou em média apenas duas semanas por ano à produção das fotografias. Na última semana, estava olhando as imagens do livro King, Queen, Knave (2024), do fotógrafo Gregory Halpern, que começou esse projeto há mais de vinte anos, quando tinha 19 anos e morava em Buffalo, NY, sua cidade natal. Outros trabalhos dele também levaram de cinco a sete anos para serem concluídos.
Casarões Zimdars (1899), 2025
No final de fevereiro, viajei para o sul para visitar a família e aproveitar alguns dias extras durante o feriado de Carnaval. Entre encontros familiares, visitas e almoços com amigos, consegui separar duas tardes para fotografar algumas pessoas que falam Plattdeutsch. Foram dois momentos muito especiais, marcados pela simpatia e simplicidade das famílias que me receberam e abriram as portas de suas casas para que eu pudesse registrar esse pedacinho quase esquecido de suas vidas.
Nessa viagem, levei minha câmera de filme, minha câmera digital e um gravador de áudio. No início do projeto, em 2019, estava decidido a fazer todas as fotografias em filme colorido. No entanto, ao longo desses cinco anos, os preços dos filmes quase triplicaram, o que me faz considerar a possibilidade de produzir as imagens com a câmera digital. Mas essa decisão ficará para a minha próxima viagem, pois o custo de alguns rolos de filme para uma semana de trabalho pode facilmente cobrir as despesas da viagem e deslocamentos. Para os retratos, fotografei primeiro com a câmera de filme e, em seguida, fiz alguns registros digitais, para que mais tarde eu possa avaliar os resultados com calma e tomar uma decisão baseada não apenas nos custos. Nessas duas visitas, também fiz alguns registros em vídeo com captação de áudio. Ainda não sei exatamente como vou trabalhar com esse material, mas quem sabe em uma próxima newsletter eu já tenha novidades sobre esse aspecto.
Olhando para trás, vejo esse tempo sem produzir fotografias como um período de amadurecimento, no qual não só pude me aprofundar no tema, mas também refletir sobre a melhor abordagem para fotografar as pessoas. Sei que não tenho mais cinco ou sete anos para concluir este projeto, pois a maioria das pessoas que ainda fala Plattdeutsch já está em idade avançada, o que limita muito o tempo que tenho para registrar esse aspecto da minha história.
Em breve, compartilharei mais informações sobre o projeto.
A documentação e o registro fotográfico de um determinando momento da história.
Tudo começou com a ideia de um projeto fotográfico, que precisava ser apresentado como trabalho de conclusão ao final da especialização que fiz entre 2009 e 2010. A princípio, pensei em fotografar o litoral de Santa Catarina em preto e branco, mas ansiava por algo além de um simples registro, procurava uma maneira de me envolver profundamente com a paisagem que fotografava. Durante os estudos, conheci os trabalhos do fotógrafo americano Carleton Watkins (1829-1916) e do brasileiro Marc Ferrez (1843-1924), que registraram paisagens e transformações nos Estados Unidos e no Brasil. Devido às limitações técnicas da época, a sensibilidade do material fotográfico exigia longas exposições, criando uma estética única para as fotografias de paisagem.
Stairway to Heaven, 2010
Na mesma época, descobri o trabalho de Valdir Cruz, fotógrafo brasileiro radicado em Nova York, que produziu uma série de ensaios no Brasil utilizando também a técnica da longa exposição, além de outros fotógrafos como o inglês Michael Kenna, o americano Rolfe Horn e o austríaco Josef Hoflehner.
Como as câmeras atuais não possuem as limitações técnicas do século XIX, precisei criar essa restrição para fotografar. Comprei um filtro ND, utilizei ISO 50 ou 100 e regulei a abertura da lente para f/16. Dessa forma, consegui que pouquíssima luz chegasse ao sensor da minha câmera. O uso da longa exposição não foi apenas uma escolha estética e de linguagem, mas também uma maneira de desacelerar o processo fotográfico, exigindo o uso do tripé e uma abordagem mais contemplativa. Comecei fotografando locais de fácil acesso em Florianópolis – Itaguaçu, Beira-Mar Norte, Sambaqui – e, ao longo dos anos, fui explorando outras regiões do litoral catarinense.
Praia da Saudade, Florianópolis (autor desconhecido)
Em 2010, fotografei dois locais na parte continental de Florianópolis. Um deles foi a Praia da Ponta do Leal, capturando as pedras Três Irmãs e o trapiche que ficava ao lado delas. Observando imagens aéreas recentes, é possível notar que o trapiche não existe mais. Na época, a construção da Avenida Beira-Mar Continental estava em fase final a menos de 500 metros dali, e atualmente já existe um projeto de ampliação que deve aterrar toda essa área.
Alguns meses depois, fotografei a Praia da Saudade onde fica o trampolim (foto Stairway to Heaven), construído em 1957 pelo engenheiro Rui Ramos Soares, numa parceria entre a Prefeitura de Florianópolis e o Clube 12 de Agosto. A estrutura serviu para a diversão dos banhistas por décadas, mas, em fevereiro de 2022, parte do trampolim desabou.
As Pedras Três Irmãs próximas da praia e Ilhas das Noivas no alto da imagem (Fonte: Google Maps)
As rápidas mudanças nas áreas urbanas próximas à natureza mostram como, em apenas 15 anos, podem ocorrer transformações significativas em nosso espaço. Isso faz com que a memória e as lembranças desses locais sejam preservadas apenas em fotografias e vídeos. Quando comecei a produzir as primeiras imagens da série Litorâneas, tinha apenas uma vaga ideia do motivo pelo qual queria fazer essas fotos. Somente anos depois compreendi verdadeiramente como esse conjunto de fotografias se tornou um registro histórico – o “isso foi”, um testemunho visual da existência prévia das coisas, como menciona o historiador francês André Rouillé em seu livro A Fotografia: Entre o Documento e a Arte Contemporânea.
Pedras Três Irmãs, 2010
Muito além da contemplação e do ato quase terapêutico de produzir uma longa exposição – condensando vários segundos e minutos em uma única imagem –, o projeto carrega a intenção de documentar, descobrir e “redescobrir” nosso mundo e nosso litoral por meio da linguagem fotográfica. Criar imagens que ressignificam aquilo que nossos olhos são incapazes de enxergar sem o auxílio do equipamento fotográfico é, ao mesmo tempo, um exercício de percepção e de preservação da memória visual.
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Uma jornada entre digital e filme, preto e branco e cor…
Este ano completo 15 anos desde que comecei a fotografar minhas primeiras longas exposições. Na época, minhas pesquisas e referências eram quase totalmente voltadas para fotografias em preto e branco. Levei cerca de 3 anos e meio para registrar minhas primeiras longas exposições em cor e, desde então, venho alternando minha produção entre fotografias PB e coloridas, tanto em digital quanto em filme. Somente agora, após esses 15 anos, realizei minhas primeiras longas exposições com filme colorido.
Sei que, para a maioria das pessoas, não faz a mínima diferença se uma fotografia foi feita com uma câmera digital ou com uma câmera de 30, 40 ou 70 anos. Mas, para nós, fotógrafos, há uma satisfação pessoal nesse processo: o momento nostálgico de carregar o filme na câmera, ajustar o foco e depois ver o resultado com cores, contraste e nuances completamente diferentes daquelas a que estamos acostumados ao olhar para telas.
Praia da Juréia #23, 2025
A imagem acima foi um desses momentos. No instante da captura, imaginei como a fotografia poderia ficar, mas sem ter absoluta certeza do resultado. Das 10 fotos do filme, uma exposição queimou (erro meu), duas precisei escanear novamente, três ficaram subexpostas e três (talvez quatro) irei compartilhar com vocês. As demais vou deixar guardadas. Melhor assim!
Mais fotografias da série Analógicas você pode ver no link abaixo:
Durante o ano de 2024, trabalhei quase que exclusivamente em duas séries abstratas: primeiro, a série “Penumbra II”, e durante o segundo semestre na série “Fragmentos de Luz”. Ambas surgiram da observação e das experimentações realizadas ao longo dos últimos anos, nas demais séries abstratas produzidas a partir de 2020.
Praia da Juréia XI, 2025
Neste início de ano, levei minha Mamiya RB para a viagem de férias e tirei alguns dias para fazer longas exposições. Essa câmera de médio formato fabricada entre os anos 70 e 90, produz apenas 10 fotos por filme e tem um processo muito mais lento do que qualquer câmera ou celular atual. Não somente pelo ato de fotografar, mas também em todo o processo posterior: revelar o filme, escanear e tratar foto por foto.
A Mamiya RB com seus quase 3kg descansando sobre o tripé
Nestas fotografias utilizei o filme preto e branco Fuji Acros 100, que repousava na minha geladeira desde antes da pandemia. Aproveitei também para fazer algumas fotografias com filme colorido. Apesar de já ter fotografado em cor antes, foi a primeira vez que utilizei filme colorido para longas exposições. Uma das maiores dificuldades que tive com o filme escolhido, foi encontrar valores ou uma tabela detalhada sobre a falha de reciprocidade, o que tornou essa primeira experiência ainda mais interessante.
Meu primeiro contato com fotografias feitas com o filme Aerochrome acredito que foi em 2014. Talvez tenha visto uma ou outra fotografia na internet, mas não despertaram minha curiosidade até 2014, quando encontrei um exemplar do livro “Infra” do fotógrafo irlandês Richard Mosse, na antiga Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
Naquela época ainda focado nas séries Litorâneas acabei não comprando o livro, mas fiquei com as imagens na memória. Me arrependo de não ter comprado o livro que na época não era barato, mas tinha um valor justo. Hoje porém, é difícil de achar o livro (somente usado) e tem valores impraticáveis, assim como o próprio filme Aerochrome.
O filme foi desenvolvido pela Kodak em 1943 durante a Segunda Guerra Mundial, para fins militares e revelar posições inimigas através do infravermelho. A escolha dos tons rosa, púrpura e magenta tinha como função facilitar a distinção do que eram árvores e mata, dos pontos inimigos camuflados. Após a guerra o filme foi popularizado e usado por muitos fotógrafos até 2009 quando o mesmo foi descontinuado.
Sete Quedas II, Paraty, 2023
Com pouquíssimos (e caríssimos) filmes restantes, iniciei em 2020 minha pesquisa e estudos sobre este filme infravermelho, sua variação tonal, contraste e características de maneira que chegasse numa paleta de cores próxima do processo analógico. Assim apresentei em 2021 as primeiras fotografias da série chamada Unseen World, que combina a técnica de longa exposição à estética bastante peculiar do filme Aerochrome, criando fotografias com uma linguagem singular.
Parque Alfredo Volpi III, São Paulo, 2024Cachoeira Paulista I, Doutor Pedrinho, 2016
Desde 2020, venho desenvolvendo séries e trabalhos abstratos. Tudo começou durante a pandemia com a série Janela ao Infinito I, inspirada nas obras de James Turrell e Yves Klein, enquanto observava o céu azul por entre as frestas dos prédios. Logo em seguida, surgiu Janela ao Infinito II, um desdobramento quase instintivo das fotografias que eu estava produzindo na época, com uma abordagem mais livre e dinâmica.
Janela ao Infinito #33, 2022
Depois de um tempo estudando e aprofundando minha pesquisa nos trabalhos e obras de Richard Serra, Franz Kline, Jackson Pollock, entre outros, em 2023 esta jornada me levou a observar as belezas e nuances entre a luz e a escuridão, culminando nos primeiros resultados da série Penumbra I. Enquanto produzia novas fotografias para as séries, outro desdobramento começou a surgir e se repetir enquanto editava as fotografias e tendo como inspiração algumas obras do Clyfford Still e do Joan Miró, em especial “O Nascimento do Mundo” de 1925. Realizei alguns experimentos na edição das fotografias, ajustando e fechando meus enquadramentos e cheguei nas primeiras obras da série Penumbra II.
Obras de Joan Miró e Clyfford Still
Enquanto finalizo as fotografias que produzi nos últimos meses, também estou desenvolvendo duas novas séries abstratas. A primeira já conta com algumas obras concluídas e parte da observação das luzes do céu, e a ressignificação através do espectro das cores (veja a foto abaixo). A segunda série ainda está em fase de pesquisa e tem uma grande inspiração nos artístas e fotógrafos surrealistas. Como essa série será inteiramente produzida de forma analógica, estou realizando os primeiros testes com o processo. Em breve, compartilharei mais detalhes sobre a criação dessas novas obras.
Como era de costume quando criança, domingo era dia de almoçar na casa da vó. E mesmo na época da faculdade tentava manter esse hábito que vinha acompanhado não apenas das lembranças da infância, mas também de manter a ligação com a família. Os dois retratos acima de 2006, são da minha avó Helena e minha bisavó Alma quando ainda descobria a fotografia.