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  • Onde as fotografias vão parar?

    Há tempos venho pensando sobre as “nossas” redes sociais, seja Instagram, Facebook, TikTok etc. Quando digo nossas, me refiro aos espaços que as grandes empresas de tecnologia nos oferecem para publicar e compartilhar nossas fotos, vídeos, notícias, memes e dancinhas, seguindo regras que não fomos nós que criamos. Em um grupo de WhatsApp do qual participo, colegas fotógrafos frequentemente se queixam do alcance e da entrega das publicações no Instagram. Vou usar o Instagram como base, pois é onde eu e a maioria de nós, fotógrafos, compartilhamos nossas fotos. Até porque, quando foi lançado em 2010, ele era justamente um aplicativo para isso.


    Assim como os colegas do grupo, eu também acabo me frustrando quando publico uma fotografia ou um conjunto delas. Olho para os números do Instagram e penso em todo o trabalho que tive: a ideia, meu tempo fotografando, os custos de filme etc., para que uma empresa, ou melhor, um algoritmo, decida se aquela fotografia é digna de alguma atenção.

    Voltando para 2010, foi o ano em que comecei a produzir minhas primeiras longas exposições. Porém, naquela época, o Instagram estava disponível apenas para iPhone e eu tinha um celular da LG, com uma câmera de qualidade duvidosa. Nesse período, eu compartilhava as fotografias pelo Facebook e pelo Twitter, mas havia um detalhe. Eu usava a versão web do Twitter, que não permitia publicar fotos diretamente nas postagens. Precisava usar um serviço de compartilhamento de imagens. Enviava minha fotografia para um e-mail e, depois, recebia um link que eu copiava e colava na mensagem do Twitter. Assim, minhas fotos apareciam por lá.

    Foram aproximadamente três anos divulgando meu trabalho pelo Facebook, Twitter e e-mail. Sem o conceito ou a ideia de uma newsletter, eu enviava por e-mail algumas imagens para meus contatos: amigos, colegas e galeristas. Foi uma época em que participei de exposições coletivas e individuais. Em 2012, participei da Bienal de Roma e, em 2013, fiz minha primeira exposição individual em uma galeria aqui em São Paulo. Tudo isso sem likes, reels e sem Instagram.

    Era uma época em que minha maior preocupação era produzir novos trabalhos, editar e finalizar as fotografias. De tempos em tempos, compartilhava essas novas imagens. Diferente de hoje, quando precisamos postar “X” vezes por semana, produzir vídeos, reels, stories etc., como se nossa rotina fosse sempre empolgante ou nossa agenda estivesse permanentemente lotada. Vernissages, lançamentos de livros, feiras de arte e tantos outros eventos importantes. Na verdade, deixamos de ser fotógrafos, ou autores do próprio trabalho, para nos transformarmos em personagens das redes sociais.


    Há alguns meses, tentei uma nova empreitada no Instagram. Criei um novo perfil, apenas para meus trabalhos abstratos, @gruetzmacher.works. Claro que, quando criei esse novo perfil, não levei em conta o tanto de trabalho que viria com ele. Assim que os trabalhos comerciais tomaram conta da agenda, ele foi deixado de lado por quase dois meses. Tento atualizar o perfil semanalmente, publicando algum novo trabalho. Mas confesso que volto ao ponto do nosso segundo parágrafo. Publicar qualquer trabalho criativo, seja uma fotografia, uma pintura ou um vídeo, em uma plataforma onde a exposição desse trabalho se resume a alguns segundos de visualização, é de uma crueldade imensa com nosso trabalho e, principalmente, com o tempo dedicado a ele.

    Outro ponto que tem me deixado inquieto é a forma como as redes sociais tratam nossa relação com a audiência. Com o uso dos algoritmos, somos limitados a aparecer apenas para uma parcela muito pequena dos nossos seguidores. Mas, além disso, penso em um futuro mais distante, em que essa audiência talvez não exista mais, seja por alguma limitação dos algoritmos ou mesmo pelo desaparecimento das redes sociais. Já acompanhamos o desaparecimento de algumas delas, e acredito que o exemplo mais conhecido para todos nós seja o finado Orkut. Também tivemos movimentos semelhantes com alguns aplicativos e meios de comunicação. ICQ, MSN Messenger, Skype e mIRC, para citar alguns, tiveram seu auge no passado, não acompanharam a evolução das tecnologias e deixaram de existir.


    Por isso, gosto da ideia de usar o e-mail. Desenvolvido na década de 1970, ele continua atual. Ou, melhor dizendo, sua tecnologia já foi suficientemente comprovada. Você envia a mensagem, a pessoa recebe e responde no seu tempo, sem pressa e sem algoritmos influenciando o que ela deve ver. 

    Há mais de dez anos, sem imaginar como as redes sociais se transformariam, comecei a criar uma lista de e-mails. Simplesmente para publicar minhas fotos e falar sobre meu trabalho do meu jeito. Sem algoritmos decidindo quem ou quando deveria ver minhas fotografias.

    Longe das redes sociais, continuo publicando meus breves ensaios, que reúnem reflexões sobre fotografia, memórias, livros, processos e linguagem. São textos que nascem de uma pergunta, de uma leitura ou de uma experiência em campo, e nem sempre dependem de fotografias para existir.


    Além desses ensaios, que são a base das publicações, irei compartilhar por aqui algumas outras formas de acompanhar meu trabalho:

    • Cadernos: apresentam capítulos das minhas pesquisas fotográficas. Cada publicação reúne uma seleção de imagens e textos que documentam um momento do trabalho, como páginas de um caderno de artista. São registros permanentes de projetos em andamento ou já concluídos.
    • Correspondências: são cartas escritas durante o desenvolvimento dos projetos. Compartilho detalhes das viagens, anotações, encontros e descobertas enquanto a pesquisa ainda está acontecendo. É um espaço para acompanhar o percurso e a evolução dos projetos.
    • Estudos: reúnem fotografias que ainda não pertencem a uma série específica. São experimentos e investigações visuais que exploram diferentes possibilidades da fotografia. Algumas dessas imagens podem dar origem a novos projetos; outras permanecerão como exercícios que preservam a liberdade da pesquisa.
    • Pequeno Gabinete de Fotografias: uma newsletter que funciona como um arquivo vivo. Todos os meses, uma nova publicação, numerada como Arquivo #01, Arquivo #02, Arquivo #03… apresentará uma única fotografia, acompanhada talvez de um breve texto sobre sua história, seu contexto ou as questões que ela continua despertando. Não se trata de uma retrospectiva nem de um portfólio. É uma forma de revisitar o arquivo, permitindo que imagens realizadas em diferentes épocas voltem a dialogar com o presente.

    No fundo, é por isso que continuo escrevendo por aqui. Para construir um espaço que não dependa de alcance, curtidas ou algoritmos. Sem a obrigação de aparecer todos os dias ou de transformar cada fotografia em conteúdo. Um lugar onde eu possa compartilhar meu trabalho no meu próprio ritmo e onde as fotografias possam encontrar pessoas dispostas a olhar para elas com um pouco mais de tempo.


    Tschüss,
    Alessandro Gruetzmacher

  • Um projeto, uma exposição e um arquivo

    Este é o terceiro texto que começo a escrever neste mês. Os outros dois seguem aguardando, ansiosamente, para serem finalizados e ganharem o mundo. Os três se relacionam entre si — seja pelo objeto final de um projeto, pelas ferramentas do fazer fotográfico ou pela produção de novos trabalhos.

    Nos próximos meses completo 20 anos morando longe da minha cidade natal, e neste mês completo 12 anos em São Paulo. A princípio, seriam apenas três meses antes de voltar para Florianópolis. Acabei estendendo para dois anos e meio a minha estadia por aqui. Depois vieram mais três, e depois mais seis anos. Uma jornada e tanto.

    Todo esse tempo, desde que deixei minha cidade natal, foi marcado por períodos de experimentação e entendimento das cidades — através da observação diária, da vivência e da forma como elas acolhem cada um de nós. Foi assim que surgiram alguns dos meus projetos, diretamente ligados à pesquisa de cada uma dessas cidades.

    Em Florianópolis, levei três anos para iniciar o desenvolvimento da série Litorâneas. Para os projetos Plattdeutsch e Toda Manhã de Domingo, precisei me afastar para compreender minha própria cidade natal. Foi esse distanciamento que me permitiu, com um novo olhar, resgatar memórias e revisitar a história da cidade.

    Já a pesquisa de um projeto sobre São Paulo foi bem mais longa. Entre 2015 e 2017, produzi algumas longas exposições, mas acabei abandonando a série por me sentir muito exposto com a câmera sobre o tripé. Foram necessários 11 anos para que eu pudesse entender melhor a cidade e encontrar uma abordagem fotográfica capaz de atravessar suas diferentes regiões.

    Assim surgiu o projeto Eixos-SP, que nasceu depois de anos percorrendo ruas e avenidas. Percursos que atravessam a cidade e organizam, de forma silenciosa, a experiência urbana — ligando São Paulo de leste a oeste, de norte a sul. Foi em uma manhã de sábado que saí de casa, próximo ao Metrô Vila Madalena, e segui até a região do Aeroporto de Congonhas. Ao passar por diversas ruas e avenidas, com nomes familiares a qualquer paulistano, percebi um trajeto contínuo, quase único — como se fosse uma única avenida. Ao voltar para casa e observar o mapa da cidade, notei que esse percurso começa na Avenida Jaguaré e cruza São Paulo até além do Metrô Jabaquara. Foi assim que tracei o primeiro eixo do projeto.

    Algumas semanas depois, movido pela curiosidade, comecei a buscar outros caminhos que poderiam fazer parte desse sistema. Ao observar o mapa, percebi que esses percursos se cruzam ao longo da cidade. Pequenas mudanças de rota e desvios foram feitos para manter os trajetos dentro dos limites de São Paulo. Assim, cheguei a cinco eixos principais, que percorrem diferentes bairros e regiões da cidade — além de dois trajetos complementares e outros três eixos que ainda estou estudando.

    Para conhecer um pouco mais sobre o projeto, acesse a página do projeto no meu site. E, se quiser apoiar esse trabalho, considere se tornar um assinante pago no Substack ou adquirir um print.


    Exposição na Itália

    No próximo mês, participo da exposição Mar, território de memórias, na cidade de Trieste, na Itália. A fotografia Sambaqui VII, da série Litorâneas, foi selecionada para a mostra, que abre na próxima semana.

    O evento acontece dentro do Le Vie delle Foto, no centro histórico da cidade, entre os dias 2 de abril e 3 de maio de 2026.


    Minha primeira newsletter pop-up

    Já faz algum tempo que venho pensando na ideia de uma newsletter temporária, com data para começar e terminar.

    Ao organizar meu arquivo fotográfico, percorri centenas de imagens autorais produzidas ao longo de 16 anos. Algumas delas marcaram momentos importantes do meu percurso entre 2010 e 2025.

    Pequeno Gabinete de Fotografias é uma newsletter temporária que será enviada entre os dias 6 e 21 de abril de 2026. Durante esse período, publicarei diariamente 5 fotografias de cada ano, revisitando meu arquivo pessoal e apresentando as imagens que considero mais significativas desse percurso.

    Ao final da série, a newsletter será encerrada. A lista de inscritos será apagada e o conteúdo ficará arquivado, disponível apenas para assinantes pagos do meu Substack.

    Um pequeno recorte do meu percurso fotográfico, aberto ao público por tempo limitado.

    Acompanhe comigo essa pequena viagem no tempo.

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    Tschüss,
    Alessandro Gruetzmacher

  • Os 4 km que eu não caminhei

    Enquanto a maioria ainda se recuperava do feriado de Carnaval, que este ano chegou mais cedo que o habitual, finalizava esta newsletter e estava planejado as próximas viagens para o sul. Mesmo que a ideia fosse ir ao cinema, visitar uma exposição, almoçar ou apenas tomar um café, era bem provável que, mesmo não querendo a gente se visse no meio de algum bloquinho.

    Este ano evitei a agitação. Passei os dias descansando, adotei um cachorro e tentei colocar a leitura em dia. No ano passado, escrevi aqui sobre meu interesse por livros pensados como objetos. Minha pequena coleção de “livros-objeto” se mistura a tantos outros: livros sobre fotografia, biografias, finanças e também muitos e-books. Demorei algum tempo para aceitar a leitura digital. Tentei ler no iPad e no próprio aplicativo do Kindle, mas não me adaptei. Talvez fosse a tela brilhante, ou as notificações e aplicativos a um clique da distração.


    Atualmente tenho intercalado a leitura entre os dois formatos. De um lado, a leveza e praticidade do Kindle; de outro, as páginas físicas e as marcações feitas à moda antiga. Neste momento estou lendo Things Become Other Things, de Craig Mod, e comecei recentemente a biografia do fotógrafo Josef Koudelka, que dispensa apresentações. Acompanho o trabalho de Craig Mod há alguns anos, desde o lançamento de Koya Bound. Escritor e fotógrafo, ele mora há mais de vinte anos no Japão e, nos últimos seis ou sete, tem usado a caminhada como ferramenta central tanto para a escrita quanto para a fotografia. Entre seus percursos estão rotas históricas de peregrinação no Japão, como a Kumano Kodō, ao sul de Kyoto, reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

    O ato de caminhar também faz parte de meus projetos. Na série Litorâneas, percorri muitos quilômetros em trilhas para registrar as longas exposições. Quando cheguei a São Paulo, caminhei muito para conhecer a cidade. No ano passado, enquanto desenvolvia a ideia do projeto Toda Manhã de Domingo e definia seus primeiros passos, literalmente e metaforicamente, percebi que a melhor maneira de realizá-lo seria caminhando. Seria muito mais simples entrar no carro e partir para o próximo ponto, cobrindo distâncias maiores em um único dia. Por outro lado, perderia a oportunidade de estar presente, de vivenciar o espaço e observando lentamente. Estar ali talvez significasse conversar com algum morador e, com sorte, fazer um retrato.

    Durante as pesquisas, encontrei um texto de Wim Wenders, no livro Written in the West, que traduz esse sentimento na forma de ver e na satisfação de caminhar e fotografar sozinho:

    “Solidão e fotografar estão conectados de uma maneira importante. Se você não está sozinho, nunca consegue adquirir esse modo de ver, essa imersão completa no que está diante dos olhos, sem precisar mais interpretar, apenas olhar. Existe um tipo particular de satisfação em olhar e viajar sozinho, e isso está ligado a essa relação entre solidão e fotografia. Se você não está sozinho, faz fotografias diferentes. Raramente sinto vontade de fotografar quando não estou por conta própria. Aquela viagem em busca de material foi puro prazer. Eu acordava de manhã e simplesmente saía dirigindo rumo ao desconhecido, seguindo estrada afora o dia inteiro. Em longos trechos, nem mesmo tinha música para ouvir. Não precisava de nada além de olhar e fotografar. A combinação também era incomum: aquelas duas belas câmeras, a Leica e a Makina, com funções distintas. Na verdade, éramos três naquela viagem… Sim, quando você fotografa, a solidão frequentemente está ligada a um sentimento particular de felicidade, um contentamento muito específico que ocasionalmente também percebi em outras pessoas que encontrei fotografando em suas viagens.”

    Como comentei na última newsletter, voltei ao sul no final de janeiro e tentei uma abordagem diferente. Em vez de caminhar, desta vez peguei uma carona, o que acabou confirmando, na prática, a ideia presente no texto de Wenders, e visitei alguns pontos que já havia mapeado. Nesse percurso de aproximadamente quatro quilômetros, foi possível perceber mudanças significativas na paisagem. Nos primeiros dois quilômetros, casas e comércios se sucedem quase lado a lado. Nos quatro seguintes, surge um espaçamento, um respiro: muito verde, pastagens e construções esparsas que transformam rapidamente o cenário. Mais adiante, ao se aproximar novamente do centro, a paisagem volta a ser tomada por casas, comércios e pequenos prédios.

    No momento, ainda não tenho data para a próxima viagem, nem minha Leica ou Makina. Mas pretendo voltar e percorrer esses trechos mais verdes, com menos interferências humanas. Ainda não tenho certeza, mas talvez possa desenvolver um projeto paralelo e retratar alguns moradores pelo caminho.

    Tchüsss,
    Alessandro Gruetzmacher

  • Dois quilômetros, algumas fotos

    Imaginei esta primeira newsletter de 2026 como uma pequena retrospectiva da minha produção autoral de 2025. A ideia era compartilhar novas fotografias do projeto Plattdeutsch e também alguns novos trabalhos em Fine Art. No entanto, o último semestre foi um tanto delicado, e precisei me afastar um pouco da fotografia e das minhas “grandes pretensões literárias” de manter esta newsletter em dia. Entre idas e vindas entre São Paulo e Santa Catarina, sempre que possível levava a câmera comigo. Ainda assim, nos últimos seis meses consegui fotografar apenas uma vez para o projeto Plattdeutsch. E, já nos meses finais de 2025, mesmo com visitas mais frequentes, fiz poucas saídas fotográficas — momentos breves para explorar, registrar algumas cenas e dar início a um novo projeto documental.

    Essas saídas abrangeram cerca de dois quilômetros do percurso. Se é que podem ser chamadas de saídas fotográficas, estavam mais próximas de caminhadas, usadas para espairecer e buscar um pouco de clareza. O trajeto foi pensado a partir dos caminhos que me levavam ao sítio na infância: começa no bairro onde cresci, ao sul da cidade, quase na divisa com Blumenau; passa pelo centro; e segue até o norte, com bairros entre morros e áreas predominantemente rurais. Ao cruzar a divisa entre Pomerode e Blumenau, ainda são alguns quilômetros de estrada de terra até chegar ao sítio. Pela minha estimativa, o percurso completo terá cerca de 45 km, atravessando trechos de asfalto, paralelepípedo e estradas de chão, passando por paisagens à beira da rodovia, casas antigas, indústrias, um centro charmoso, pequenos trechos junto ao rio e estradas íngremes com vistas para matas e áreas rurais.

    Nessas caminhadas, fiz testes de luz, enquadramento e observei o que poderia funcionar para este novo projeto, registrando cenas e paisagens e fazendo anotações sobre a abordagem. Para simplificar o processo de criação, o fluxo de imagens e construir um olhar mais coeso para a série, decidi trabalhar apenas com uma lente fixa. Levei comigo a câmera, a lente, um cartão de memória reserva e algumas baterias extras. Inspirado pelo movimento New Topographics e por fotógrafos como John Gossage e Mark Ruwedel, retomei o uso do preto e branco, deixando a fotografia em cor exclusivamente para o projeto Plattdeutsch. Assim, estabeleço uma separação clara entre os dois trabalhos — e sei, desde o início, para qual projeto estou fotografando.

    O movimento New Topographics surgiu em 1975, a partir de uma exposição homônima, e ficou conhecido por sua abordagem documental de paisagens banais — subúrbios, rodovias, áreas industriais — rejeitando o romantismo tradicional da fotografia e voltando o olhar para a paisagem urbana em transformação. Embora não tenha participado da exposição original, o fotógrafo John Gossage, conhecido pelo livro The Pond, tem uma frase da qual gosto muito: “There seems to be a great deal of opportunity in the ordinary.”

    Com essa citação em mente, compartilho abaixo algumas fotografias do banal, produzidas nessas breves caminhadas.

    Na próxima semana, retorno a Santa Catarina para registrar outros pontos importantes do percurso. Em breve, compartilho novas imagens por aqui — e, se quiser saber mais sobre o projeto, é só me escrever.

    Tchüsss,
    Alessandro Gruetzmacher

  • Toda Manhã de Domingo

    Novo projeto sobre minha cidade natal

    Algumas das minhas memórias mais vívidas da infância acontecem nos domingos no sítio do meu avô. O café da manhã com minha bisavó. O cheiro da comida da minha avó se espalhando pela casa. Passar o dia correndo descalço pelo terreno. Pescar com meu pai e com meu avô. Durante muitos anos, foram essas pequenas rotinas de domingo que preencheram meus finais de semana — e boa parte das lembranças que carrego daquela época. Às vezes íamos no sábado, mas era quase sempre o domingo que guardava esses momentos que sigo levando comigo com carinho.

    Fazendo sol, chuva ou frio, domingo de sítio era dia de acordar cedo. Lembro das manhãs de inverno em que meu pai me chamava antes do sol nascer. Ainda meio sonolento, vestia o casaco e corria até o jardim para observar a geada brilhando na grama e no telhado das casas vizinhas. Logo depois partíamos. No banco de trás do carro, eu me inclinava para ver a geada na mata, o vapor subindo do rio e o caminho sinuoso que levava até o sítio. Esse trajeto, percorrido centenas de vezes, é também um mapa das minhas primeiras memórias: as casas, as pequenas fábricas, os comércios; a rua de paralelepípedos no centro da cidade; e os últimos quilômetros de estrada de terra. Cada trecho, curva e bifurcação desenhava a paisagem dos domingos — ora entre as casas, ora entre a mata dos morros.

    A fotografia deste projeto parte desse lugar íntimo. É um olhar sobre a memória afetiva da minha cidade natal. As imagens convidam o espectador a caminhar comigo – atravessando o espaço entre a lembrança e o presente.

    Para ver outras fotografias acesse meu site, ou assine o Substack para acompanhar as novidades deste e outros projetos.

  • Um breve mapa sobre meu trabalho

    Se você acompanha minhas newsletters, já deve ter notado que meu trabalho circula por diferentes territórios da fotografia — uma fala sobre arquitetura e interiores, outra sobre fotografia fine art, e a mais recente (que na teoria seria para substituir o Instagram, mas na prática virou um espaço mais livre) onde compartilho meus processos e projetos documentais.

    Ou mesmo conversando com novos clientes, percebo que alguns ainda não conhecem meu trabalho autoral, enquanto outros não sabem que também fotografo arquitetura e interiores.

    Então, aproveitei este espaço para reunir tudo em um só lugar — uma espécie de mapa do que venho produzindo, entre o comercial, o autoral e o documental. No fundo, todas essas frentes nascem de um mesmo interesse: observar o espaço e a relação entre tempo, luz e presença.

    No campo comercial, realizo projetos de fotografia voltados para arquitetura, interiores e produtos. Mais recentemente, tenho apresentado também projetos em vídeo e imagens aéreas (drone), voltados especialmente para arquitetura e interiores. São trabalhos desenvolvidos em parceria com escritórios, marcas e construtoras, sempre com atenção à atmosfera e à fidelidade visual dos espaços.

    Paralelamente, mantenho uma produção autoral, explorando a fotografia como linguagem poética. Nas séries de longa exposição, a passagem do tempo se torna matéria visível — como em Litorâneas e Analógicas, onde o mar e a luz se dissolvem em camadas sutis; em Unseen World, onde a técnica revela paisagens invisíveis ao olhar; e em Nova York e Rio de Janeiro, que transporta o ritmo urbano para uma dimensão silenciosa e etérea.

    Nas séries abstratas, exploro a cor, o movimento e a forma como elementos poéticos: Janela ao Infinito, Penumbra e Fragmentos de Luz refletem esse diálogo entre o real e o sensível — imagens que nascem da observação.

    A vertente documental reúne projetos de pesquisa e observação: o Plattdeutsch, que retrata comunidades do sul do Brasil que ainda preservam o dialeto e seus modos de vida; Toda Manhã de Domingo, que explora memórias e percursos de infância na minha cidade natal; e a Travel Series, que busca o encontro entre paisagem e experiência, durante minhas viagens pela América do Sul. Mais recentemente, o Projeto Eixo – São Paulo (eu sei, um péssimo nome por enquanto) explora as relações entre pessoas, território e paisagem urbana.

    Entre o trabalho encomendado e o autoral, há um mesmo fio condutor: o interesse pela construção do olhar — pelo modo como a fotografia revela, interpreta e transforma o mundo ao redor.

    Para conhecer mais sobre cada projeto autoral, visite meu site:
    www.gruetzmacher.com.br

    ou explore meus trabalhos para arquitetos e designers em:
    www.gruetzmacherstudio.com

  • Territórios da Memória

    Comecei a escrever este post alguns dias antes de completar dois meses desde a última publicação. A ideia inicial era escrever semanalmente. Pouco depois, percebi que, com os trabalhos e compromissos, uma edição quinzenal seria uma boa saída para conciliar tudo. Mas logo se passou um mês… depois dois, sem nenhum sinal meu por aqui.

    Se você está lendo este post, significa que não apenas encontrei um tempo em meio à agenda apertada, mas também tenho novas ideias e observações para compartilhar.

    Nestes últimos dois meses, tivemos uma pequena viagem de família, alguns passeios, uma ida de última hora para o sul e diversas fotos despretensiosas. Fotos feitas ao acaso — na rua, em casa, no avião… Diferente dos últimos anos, em que me dediquei quase exclusivamente aos trabalhos comerciais e projetos autorais. Raras foram as vezes em que fotografei passeios ou registrei cenas do cotidiano conforme apareciam diante de mim. Sempre fotografei de forma mais objetiva, com atenção ao assunto, especialmente quando estava envolvido em séries ou projetos documentais.

    Estamos acostumados às imagens de grandes fotógrafos como Ansel Adams, Henri Cartier-Bresson, Sebastião Salgado, entre outros. Fotografias impecáveis, com composições harmoniosas, luzes perfeitas, exposições e contrastes precisos. Como a maioria dos fotógrafos, também busquei o extraordinário: o momento exato, o esforço que prova o quanto fomos longe ou o quanto esperamos para conseguir aquela imagem. E não estou aqui desqualificando o trabalho de ninguém — pelo contrário, também cruzei o continente para fotografar a Patagônia e estive a mais de 5.000 metros, no Peru, para registrar a Cordilheira dos Andes. E acredito que o Instagram contribuiu muito para esse imaginário coletivo de “fotografia ideal”, que acaba influenciando como olhamos e produzimos imagens.

    Nesse processo, muitas vezes esquecemos de reparar nos detalhes do dia a dia: aquele pequeno raio de luz, um desenho na pintura descascada de um muro, o amassado na lataria de um carro. O trabalho de fotógrafos como Robert Adams, John Gossage, Henry Wessel e Robert Frank segue justamente essa linha — mostrar o mundo real, em vez de uma visão romantizada da fotografia. É a liberdade de registrar o mundo em nossa volta, do jeito que vemos, ou porque aquilo é importante para nós, sem a obrigação de se encaixar em padrões. Pensando não só no “assunto”, mas também na “forma”. É nesse sentido que a fotografia pode ser muito particular em como enxergamos as coisas e o porque as fotografamos.

    Desde que voltei a trabalhar no projeto sobre o dialeto Plattdeutsch, tenho levado para minha cidade natal um olhar, uma bagagem fotográfica muito mais ampla. Se é que posso dizer que em 2006 eu tinha alguma bagagem. Hoje, depois de 21 anos morando fora, passo a perceber a cidade com um olhar quase estrangeiro. Observo a rotina, a paisagem, as pessoas e penso em como explorar visualmente esses elementos. Tenho pesquisado bastante sobre a sequência do projeto, planejado retratos, traçado estradinhas a percorrer e revisitado minhas memórias de infância. Caminhos de bicicleta com amigos, aventuras de canoa no rio, pescarias com meu pai ou o trajeto até o sítio dos meus avós. Essas memórias se transformam agora em um olhar fotográfico, que quero traduzir em projetos visuais.

    Tschüss!
    Alessandro Gruetzmacher

  • Retratos no Tempo: A Construção de um Projeto de Longa Duração

    Eu não me lembro exatamente quando surgiu o desejo de fazer este projeto, mas sempre pensei em algo relacionado à minha cidade natal, Pomerode (SC). Entre 2010 e 2016, produzi algumas fotografias em longa exposição das paisagens e de algumas casas enxaimel. No entanto, mesmo estando muito envolvido com meu trabalho nessa técnica, sempre senti que faltava algo nessas imagens.


    Em 2018, comecei a estudar o trabalho de alguns fotógrafos, entre eles Bryan Schutmaat, Alec Soth e Nadav Kander. Foram as fotografias do livro Grays the Mountain Sends, de Bryan, com seus belíssimos retratos, paisagens e a poesia presente em cada imagem deste trabalho – que foi desenvolvido em pequenas cidades mineradoras dos Estados Unidos – que acenderam a primeira chama para este projeto. Ainda em 2018 e 2019, fiz as primeiras fotografias usando minha câmera de filme, uma Mamiya RB67.

    Então, 2020 chegou trazendo uma grande reviravolta para todos nós. A pandemia me impediu de dar sequência ao projeto, e assim se passaram cinco anos sem que eu tirasse uma única fotografia para ele. Não que eu não tenha viajado para o sul nesse período, mas as prioridades desse tempo e algo dentro de mim não estavam em sintonia para continuar o trabalho. Me arrependo um pouco de não ter insistido e me dedicado mais, mas, nas poucas e curtas viagens que fiz para o sul, acabei aproveitando para estar com minha família.


    Projetos de longa duração permitem esse intervalo, um respiro na produção para que as ideias se organizem e tomem forma. Minha série Litorâneas levou cerca de quatro anos para que seu principal corpo de trabalho fosse concluído e, ainda assim, continuo produzindo algumas imagens para a série. Um outro exemplo é o trabalho mais recente de Bryan Schutmaat, Sons of the Living, que levou dez anos para ser finalizado. Em entrevista ao podcast Photo Work with Sasha Wolf, Bryan comentou que, desses dez anos, ele se dedicou em média apenas duas semanas por ano à produção das fotografias. Na última semana, estava olhando as imagens do livro King, Queen, Knave (2024), do fotógrafo Gregory Halpern, que começou esse projeto há mais de vinte anos, quando tinha 19 anos e morava em Buffalo, NY, sua cidade natal. Outros trabalhos dele também levaram de cinco a sete anos para serem concluídos.

    No final de fevereiro, viajei para o sul para visitar a família e aproveitar alguns dias extras durante o feriado de Carnaval. Entre encontros familiares, visitas e almoços com amigos, consegui separar duas tardes para fotografar algumas pessoas que falam Plattdeutsch. Foram dois momentos muito especiais, marcados pela simpatia e simplicidade das famílias que me receberam e abriram as portas de suas casas para que eu pudesse registrar esse pedacinho quase esquecido de suas vidas. 

    Nessa viagem, levei minha câmera de filme, minha câmera digital e um gravador de áudio. No início do projeto, em 2019, estava decidido a fazer todas as fotografias em filme colorido. No entanto, ao longo desses cinco anos, os preços dos filmes quase triplicaram, o que me faz considerar a possibilidade de produzir as imagens com a câmera digital. Mas essa decisão ficará para a minha próxima viagem, pois o custo de alguns rolos de filme para uma semana de trabalho pode facilmente cobrir as despesas da viagem e deslocamentos. Para os retratos, fotografei primeiro com a câmera de filme e, em seguida, fiz alguns registros digitais, para que mais tarde eu possa avaliar os resultados com calma e tomar uma decisão baseada não apenas nos custos. Nessas duas visitas, também fiz alguns registros em vídeo com captação de áudio. Ainda não sei exatamente como vou trabalhar com esse material, mas quem sabe em uma próxima newsletter eu já tenha novidades sobre esse aspecto.

    Olhando para trás, vejo esse tempo sem produzir fotografias como um período de amadurecimento, no qual não só pude me aprofundar no tema, mas também refletir sobre a melhor abordagem para fotografar as pessoas. Sei que não tenho mais cinco ou sete anos para concluir este projeto, pois a maioria das pessoas que ainda fala Plattdeutsch já está em idade avançada, o que limita muito o tempo que tenho para registrar esse aspecto da minha história.

    Em breve, compartilharei mais informações sobre o projeto.

  • Vamos fazer algo diferente…

    Uma nova newsletter

    Decidi criar um novo espaço, uma nova newsletter para compartilhar, de forma mais pessoal, meus projetos fotográficos, ideias e reflexões sobre a fotografia. Ao contrário das redes sociais, onde o conteúdo se perde rapidamente no fluxo infinito de postagens e o algoritmo decide o que você vê, pela newsletter a informação chega diretamente até você, sem filtros e sem pressa.

    Um dos motivos para essa mudança é a necessidade de um espaço mais tranquilo e focado para apresentar novas séries, compartilhar bastidores e trazer histórias que inspiram minhas imagens, construindo um diálogo mais próximo com quem acompanha meu trabalho. Além disso, quero usar esse canal para falar sobre a fotografia de maneira mais ampla – seja explorando técnicas, compartilhando referências ou discutindo novas formas de ver e registrar o mundo.

    Acredito que esta mudança na forma de compartilhar minhas ideias e trabalho, é semelhante ao que fiz em 2010 quando comecei a produzir minha série Litorâneas. Para o projeto comecei a utilizar a técnica de longas exposições, que ajudou a desacelerar meu processo fotográfico, podendo observar o mundo de uma maneira mais calma. Ser seletivo com o que iria fotografar, pré-visualizar a cena e só depois colocar a câmera sobre o tripé para fazer a longa exposição, fez com que eu deixasse de produzir dezenas de fotografias em cada saída e voltando para casa com algumas poucas. O processo muito semelhante a fotografar com filme, me fez desacelerar e perceber que com menos fotografias, estava muito mais feliz com o significado do meu trabalho.

    O que você pode esperar nesta newsletter:

    • Mais do meu trabalho: Um olhar mais profundo e detalhado sobre o meu trabalho, making-of, fotografias inéditas e novas histórias.
    • Novidades sobre meus projetos: Acompanhe o desenvolvimento e criação do meu próximo projeto fotográfico “Plattdeutsch”, tema que tenho estudado ao longo dos últimos anos.
    • Livros: Detalhes e desafios na criação do meu primeiro livro.


    Espero que esta newsletter seja um ótimo refúgio para você que aprecia meu trabalho.

    Onde mais você pode encontrar sobre meu trabalho:
    Fotografia Fine Art: www.gruetzmacher.com.br
    Instagram: @_gruetzmacher
    Fotografia de Arquitetura: www.grutzfotografia.com.br

    Ou envie um e-mail para: contato@gruetzmacher.com.br

  • De volta ao analógico

    Durante o ano de 2024, trabalhei quase que exclusivamente em duas séries abstratas: primeiro, a série Penumbra II, e durante o segundo semestre na série Fragmentos de Luz. Ambas surgiram da observação e das experimentações realizadas ao longo dos últimos anos, nas demais séries abstratas produzidas a partir de 2020.

    Neste início de ano, levei minha Mamiya RB para a viagem de férias e tirei alguns dias para fazer longas exposições. Essa câmera de médio formato fabricada entre os anos 70 e 90, produz apenas 10 fotos por filme e tem um processo muito mais lento do que qualquer câmera ou celular atual. Não somente pelo ato de fotografar, mas também em todo o processo posterior: revelar o filme, escanear e tratar foto por foto.

    Nestas fotografias utilizei o filme preto e branco Fuji Acros 100, que repousava na minha geladeira desde antes da pandemia. Aproveitei também para fazer algumas fotografias com filme colorido. Apesar de já ter fotografado em cor antes, foi a primeira vez que utilizei filme colorido para longas exposições. Uma das maiores dificuldades que tive com o filme escolhido, foi encontrar valores ou uma tabela detalhada sobre a falha de reciprocidade, o que tornou essa primeira experiência ainda mais interessante.

    Praia da Juréia XVIII + Praia da Juréia XVII