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  • Caderno #01

    Há caminhos que deixamos de percorrer sem perceber.

    Durante muitos anos, as manhãs de domingo tinham um destino conhecido. A viagem começava na casa dos meus pais, em Pomerode, e terminava no sítio onde meu avô viveu por grande parte da vida. Algumas das minhas memórias mais vívidas da infância acontecem nestes domingos: o café da manhã com minha bisavó, as brincadeiras no quintal, o cheiro da comida da minha avó, as pescarias com meu pai. Pequenas rotinas que, por anos, deram forma aos meus finais de semana e ao modo como lembro da minha cidade.

    O trajeto de casa até o sítio também faz parte dessas lembranças: as frias manhãs de inverno, as mesmas casas, a antiga fábrica, uma igreja, a sinuosa estrada de terra. Cada trecho desse caminho guardava algo e, juntos, formavam os cenários da minha infância.

    Anos depois, decidi voltar.

    Não para reconstruir uma lembrança ou procurar por aquilo que existia antes. A memória nunca devolve um lugar exatamente como ele foi. Ela transforma, apaga detalhes, inventa outros. O que me interessa é reviver esse percurso tão vivo em minha memória, buscar o que permanece e o que já não pode ser recuperado.

    Toda Manhã de Domingo nasce dessa volta.

    Ao longo dos próximos anos, pretendo percorrer novamente essa estrada, quilômetro por quilômetro, fotografando no mesmo ritmo lento que a paisagem parece pedir: fins de tarde, caminhadas sem pressa e poucas imagens.

    As imagens que seguem pertencem aos primeiros trechos dessa caminhada.

    Sobre os Cadernos

    Ao longo dos próximos anos, alguns projetos serão publicados em pequenas edições chamadas Cadernos.

    Cada Caderno registra um momento específico de uma pesquisa em andamento. Não apresenta um trabalho concluído, mas um trecho do percurso: uma estrada, um encontro, uma paisagem ou uma conversa.

    Inspirados nos cadernos de artista, acompanham o desenvolvimento dos projetos antes de sua forma definitiva em livros ou exposições. 

    Publicados em sequência e numerados, formam um arquivo contínuo da minha produção.

    Edição Fine Art

    As fotografias apresentadas neste Caderno estão disponíveis como impressões Fine Art em edição limitada, em diferentes formatos e tiragens.

    Algumas imagens também contam com uma Edição de Apoio: um formato menor, concebido para tornar este trabalho acessível a um número maior de colecionadores, sem abrir mão da qualidade de impressão e da tiragem limitada.

    A aquisição de uma fotografia contribui para a continuidade desta pesquisa, tornando possíveis novas viagens, novos encontros e os próximos capítulos deste e outros projetos.

    Caso tenha interesse em conhecer as edições disponíveis ou conversar sobre alguma fotografia, basta responder a este e-mail.


    Tschüss,
    Alessandro Gruetzmacher

  • A Quantidade Ideal de Câmeras

    Olá! Faz alguns meses desde meu último sinal de vida por aqui. Neste período, fui tomado por trabalhos, viagens e outros compromissos que preencheram meus dias. Em abril, publiquei minha primeira newsletter pop-up, Pequeno Gabinete de Fotografias, na qual revisitei meu arquivo fotográfico e compartilhei as imagens que considero mais significativas. Ao revisitar essas fotografias, lembrei de quando tinha apenas uma câmera e uma lente, com as quais produzi grande parte da série Litorâneas. Pensando nisso, comecei a me questionar sobre a quantidade de equipamentos que nós, fotógrafos, acumulamos e o que realmente usamos.

    Tirando as especificidades de cada trabalho, podemos concordar que, na maioria das vezes, uma câmera e uma lente resolveriam a maior parte das necessidades. Como sempre dizem, “a melhor câmera é aquela que está com você”. E, convenhamos, é difícil discordar dessa ideia. Ainda assim, gostamos de criar histórias e justificativas para nós mesmos. Se tempo e, principalmente, dinheiro não fossem um problema, tenho certeza de que todo fotógrafo teria várias câmeras, inúmeras lentes e todo tipo de acessório. Volta e meia me pego lendo reviews de lançamentos, pesquisando novos equipamentos ou “montando” o kit dos sonhos.

    Nos primeiros anos da fotografia, vi o anúncio do lançamento de uma lente. Era uma Canon 17-40mm f/4 L, com o anel vermelho que identifica as lentes profissionais da marca. Na época, eu tinha apenas uma câmera digital compacta, e aquela lente não me serviria para nada. Cerca de cinco anos depois, finalmente comprei a tão sonhada lente. Ela está comigo até hoje e, entre 2010 e 2013, foi a lente que usei para fotografar a série Litorâneas. A câmera e a lente formavam um conjunto simples e relativamente compacto, e, junto com um filtro ND e um disparador, eram as únicas coisas que eu levava para fotografar.

    Ano passado, escrevi um texto sobre minhas câmeras, Uma Vida Entre Caixas de Luz, e é interessante acompanhar a evolução do meu processo fotográfico em relação aos equipamentos. A adição de novas câmeras, além de acessórios e equipamentos de áudio, expandiu as possibilidades fotográficas. Longas exposições, projetos documentais, séries abstratas, fotografias analógicas e tantos outros trabalhos multiplicaram meu acervo de imagens. Ao mesmo tempo, acabaram gerando diversas indecisões sobre qual equipamento levar em cada viagem.

    Não que eu tenha muitos equipamentos, mas decidi simplificá-los. Dependendo da situação, algumas câmeras saíam de casa literalmente para passear. Uma das maneiras que encontrei para simplificar meu processo fotográfico foi limitar determinados equipamentos a projetos específicos. Desse modo, a decisão passa a ser mais sobre sair para fotografar do que sobre quais equipamentos levar.

    Poderia simplesmente optar pela minha câmera digital, usar duas das minhas lentes e fotografar todas as séries e projetos? Com certeza seria a opção mais prática. Mas há algo nos projetos documentais em que busco uma linguagem própria, diferente da estética da fotografia digital. 

    Por isso, em 2018, decidi que o projeto Plattdeutsch seria produzido em filme colorido. Essa escolha pode não fazer muito sentido hoje em dia, mas existe algo na fotografia analógica que transmite uma aura particular às imagens e, principalmente, às pessoas retratadas.

    Nesses últimos meses, fiquei estudando e avaliando o melhor conjunto de equipamentos para cada projeto. Hoje, quando sei para qual projeto vou fotografar, levo o equipamento já definido e pronto. Por um lado, essa escolha me limita; por outro, simplifica o ato de fotografar, sem que eu precise carregar equipamentos que não vou utilizar. Para o projeto Eixos-SP, por exemplo, defini que vou utilizar minha câmera de filme, uma lente 35mm e filme preto e branco. Já para o projeto Plattdeutsch, a escolha é a câmera de médio formato e filme colorido.

    Passei os últimos meses convencido de que precisava de menos equipamentos. Até que, no início deste mês, tive uma surpresa.

    Era uma terça-feira de manhã, na segunda semana de junho, quando recebi uma mensagem do meu amigo e vizinho: “Seguinte, deixei na tua porta aquilo que podemos chamar de presente, rsrs”.

    Sem saber do que se tratava, fui imediatamente até a porta conferir o que me aguardava. Para minha surpresa, quando a abri, encontrei uma câmera de grande formato 4×5. Mais especificamente uma Toyo View, com adaptador para filme 120 e algumas caixas de filme 4×5.

    Que baita presente!

    A ideia de simplificar meus equipamentos segue nos planos. Pelo menos eu acho. Confesso que essa nova câmera trouxe muitas possibilidades para os projetos em andamento e também algumas ideias para projetos futuros. Nesta última semana, examinei a câmera com calma e percebi que ela precisa de alguns ajustes: um fole novo, um vidro despolido, uma lente e alguns outros acessórios para 4×5.

    Vai ser o projetinho de 2026 colocá-la para funcionar. Pelo visto, simplificar os equipamentos vai ter que esperar mais um pouco.

    Tschüss,
    Alessandro Gruetzmacher

  • Os 4 km que eu não caminhei

    Enquanto a maioria ainda se recuperava do feriado de Carnaval, que este ano chegou mais cedo que o habitual, finalizava esta newsletter e estava planejado as próximas viagens para o sul. Mesmo que a ideia fosse ir ao cinema, visitar uma exposição, almoçar ou apenas tomar um café, era bem provável que, mesmo não querendo a gente se visse no meio de algum bloquinho.

    Este ano evitei a agitação. Passei os dias descansando, adotei um cachorro e tentei colocar a leitura em dia. No ano passado, escrevi aqui sobre meu interesse por livros pensados como objetos. Minha pequena coleção de “livros-objeto” se mistura a tantos outros: livros sobre fotografia, biografias, finanças e também muitos e-books. Demorei algum tempo para aceitar a leitura digital. Tentei ler no iPad e no próprio aplicativo do Kindle, mas não me adaptei. Talvez fosse a tela brilhante, ou as notificações e aplicativos a um clique da distração.


    Atualmente tenho intercalado a leitura entre os dois formatos. De um lado, a leveza e praticidade do Kindle; de outro, as páginas físicas e as marcações feitas à moda antiga. Neste momento estou lendo Things Become Other Things, de Craig Mod, e comecei recentemente a biografia do fotógrafo Josef Koudelka, que dispensa apresentações. Acompanho o trabalho de Craig Mod há alguns anos, desde o lançamento de Koya Bound. Escritor e fotógrafo, ele mora há mais de vinte anos no Japão e, nos últimos seis ou sete, tem usado a caminhada como ferramenta central tanto para a escrita quanto para a fotografia. Entre seus percursos estão rotas históricas de peregrinação no Japão, como a Kumano Kodō, ao sul de Kyoto, reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

    O ato de caminhar também faz parte de meus projetos. Na série Litorâneas, percorri muitos quilômetros em trilhas para registrar as longas exposições. Quando cheguei a São Paulo, caminhei muito para conhecer a cidade. No ano passado, enquanto desenvolvia a ideia do projeto Toda Manhã de Domingo e definia seus primeiros passos, literalmente e metaforicamente, percebi que a melhor maneira de realizá-lo seria caminhando. Seria muito mais simples entrar no carro e partir para o próximo ponto, cobrindo distâncias maiores em um único dia. Por outro lado, perderia a oportunidade de estar presente, de vivenciar o espaço e observando lentamente. Estar ali talvez significasse conversar com algum morador e, com sorte, fazer um retrato.

    Durante as pesquisas, encontrei um texto de Wim Wenders, no livro Written in the West, que traduz esse sentimento na forma de ver e na satisfação de caminhar e fotografar sozinho:

    “Solidão e fotografar estão conectados de uma maneira importante. Se você não está sozinho, nunca consegue adquirir esse modo de ver, essa imersão completa no que está diante dos olhos, sem precisar mais interpretar, apenas olhar. Existe um tipo particular de satisfação em olhar e viajar sozinho, e isso está ligado a essa relação entre solidão e fotografia. Se você não está sozinho, faz fotografias diferentes. Raramente sinto vontade de fotografar quando não estou por conta própria. Aquela viagem em busca de material foi puro prazer. Eu acordava de manhã e simplesmente saía dirigindo rumo ao desconhecido, seguindo estrada afora o dia inteiro. Em longos trechos, nem mesmo tinha música para ouvir. Não precisava de nada além de olhar e fotografar. A combinação também era incomum: aquelas duas belas câmeras, a Leica e a Makina, com funções distintas. Na verdade, éramos três naquela viagem… Sim, quando você fotografa, a solidão frequentemente está ligada a um sentimento particular de felicidade, um contentamento muito específico que ocasionalmente também percebi em outras pessoas que encontrei fotografando em suas viagens.”

    Como comentei na última newsletter, voltei ao sul no final de janeiro e tentei uma abordagem diferente. Em vez de caminhar, desta vez peguei uma carona, o que acabou confirmando, na prática, a ideia presente no texto de Wenders, e visitei alguns pontos que já havia mapeado. Nesse percurso de aproximadamente quatro quilômetros, foi possível perceber mudanças significativas na paisagem. Nos primeiros dois quilômetros, casas e comércios se sucedem quase lado a lado. Nos quatro seguintes, surge um espaçamento, um respiro: muito verde, pastagens e construções esparsas que transformam rapidamente o cenário. Mais adiante, ao se aproximar novamente do centro, a paisagem volta a ser tomada por casas, comércios e pequenos prédios.

    No momento, ainda não tenho data para a próxima viagem, nem minha Leica ou Makina. Mas pretendo voltar e percorrer esses trechos mais verdes, com menos interferências humanas. Ainda não tenho certeza, mas talvez possa desenvolver um projeto paralelo e retratar alguns moradores pelo caminho.

    Tchüsss,
    Alessandro Gruetzmacher